Conselhos para quem estuda!

Paulo Faitanin - UFF

conselhos para quem estuda

1. Introdução: A cultura da mediocridade intelectual revela sua face nas carteiras escolares e universitárias, sejam quando estão vazias ou mesmo quando cheias. Nivela-se tudo à cultura televisiva. Sendo levados meramente pela imaginação os jovens, muitas vezes, não conseguem desenvolver argumentação, mas não por impossibilidade natural, mas pelo mau hábito de não estudar, ler. O estudo é uma virtude esquecida nos dias de hoje, pois tudo é-nos dado com uma resposta pronta em que não se exige a análise e a crítica. O que está por traz disso? A passividade intelectual dos jovens! Não todos, mas um significativo número de alunos não estuda não porque não possui meios para tal, mas porque simplesmente não querem estudar, pois alega que consegue ganhar mais fácil e rápido o que com muito esforço levaria muito mais tempo pelo estudo.

2. Raciocinar: O erro da inteligência na aplicação dos seus próprios princípios – que nos orienta retamente para o conhecimento da verdade – parece ser o mais grave de todos, já que tudo demais suporá o seu uso. Por este motivo, deve ser criteriosamente evitado pelo aprendizado da lógica e se já existe o erro, ele deve ser corrigido com os seus devidos remédios. Voltar a proceder segundo a reta aplicação do princípio da não-contradição e definir bem os termos é o caminho de educar a razão para conceber a verdade, na medida em que o conceito produzido pela mente constitua uma verdade por se adequar com a realidade previamente considerada. As enfermidades decorrentes desta não aplicação são a fantasia e a falsidade, cujas curas também supõem, obviamente, não só o remédio pela reorientação da razão em seus princípios, mas também de uma educação dos sentidos internos no uso das imagens sensíveis apreendidas e guardadas na memória sensível. Mas de nada adiantaria a sua reorientação, se também não fossem reorientadas a vontade e as paixões. A reorientação da vontade e das paixões passa pela prática das virtudes morais. Se a desorientação da razão pela contradição pode gerar a falsidade e o erro, a da vontade, pela desorientação da razão e pela forte influência das paixões pode influenciar na escolha, a partir de um juízo falso acerca da realidade. Por isso, de nada adiantaria possuir a capacidade natural de aplicar o princípio da não-contradição no raciocínio se não for desenvolvido o hábito de proceder retamente em seu uso sobre a vontade.

3. Estudo: Denomina-se estudiosidade a virtude que se refere à moderação e a orientação do desejo natural de conhecer . O desejo natural de conhecer deve ser moderado, seja do seu exagero ou de sua apatia. Modera refreando o exagero da inclinação natural, que pode conduzir o homem a buscar conhecimentos desprezíveis e maléficos para si próprio e modera fortalecendo a sua apatia diante da fuga da fadiga inerente à consecução do conhecimento. Neste aspecto, a estudiosidade é louvável porque freia o exagero da inclinação da alma e fortalece a intenção para adquirir a ciência das coisas, mediante a superação da dificuldade inerente à aquisição do saber . A estudiosidade é virtude anexa à temperança e deve ser desenvolvida ainda na tenra idade infantil. A temperança é efetivamente a primeira virtude a ser ensinada na infância, cujo hábito poderá moderar os impulsos concupiscíveis e ordenar a busca desregrada do prazer que um bem sensível lhe traga, como o prazer advindo da desordem do comer, beber, dormir, brincar etc. Estabelecida pela temperança a ordem da concupiscência sensível, pode desenvolver-se o hábito de estudo, pelo ensino da virtude da estudiosidade, pois o que mais dificulta o estudo nesta idade são justamente as desordens da concupiscência, que se não forem sanadas, constituirão uma forte oposição à consecução da virtude da estudiosidade. Além do mais, se não for sanada a desordem da concupiscência, isso muito auxiliará na formação de um vício ainda pior que é o da preguiça. Este vício consiste na desordem doapetite concupiscível, configurando-se numa tristeza profunda no espírito do homem, como uma depressão que obstaculiza a vontade e a razão na realização ou promoção das inclinações naturais da alma, tanto para fazer o bem, quanto para conhecer a verdade . Quando obstaculiza a razão na busca da verdade opõe-se diretamente à virtude do estudo.Por isso, para combater a fraqueza do espírito, a estudiosidade deve ser também fundada numa outra virtude que pode ser desenvolvida conjuntamente com a temperança, a saber, a fortaleza. A estudiosidade fundada na fortaleza fortalece a intenção da alma em sua inclinação natural ao conhecimento da verdade, diante das dificuldades que lhe possam advir. Enfim, a estudiosidade é a virtude que modera, fortalece e orienta o desejo natural de conhecer para o seu fim devido, ou seja, o conhecimento da verdade. Eis o único modo pelo qual se supera a mediocridade intelectual gerada pela massificação da fantasia.

Tomás de Aquino, S. De unitate intel. c. 1.

Tomás de Aquino, S. STh. II-II, q. 166, a. 2, c.

Tomás de Aquino, S. STh. II-II, q. 166, a. 2, ad. 3.

Tomás de Aquino, S. STh. II-II, q35, a1, c.