
Causalidade e acaso na natureza!
por Rodolfo Petrônio – Instituto Aquinate e Faculdade de São Bento/RJ.
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“Frequentemente reivindicamos o acaso, ou sorte, e o acidentental como causas, dizendo que algo aconteceu como ‘ocorrido por acaso ou por sorte’ ou ‘acidentalmente’. Qual é então o papel do acaso e do acidental entre as causas de que tratamos [material, formal, eficiente e final]? Há alguma distinção entre elas? E, resumindo, o que são? Haja vista que alguns questionam sua existência [do acaso], declarando que nada acontece casualmente, mas que tudo de que assim falamos tem realmente uma causa definida. Por exemplo, se um homem se dirige ao mercado e lá encontra por acaso alguém que ele desejaria encontrar, mas não esperava encontrá-lo ali, a razão de o ter encontrado era que ele queria fazer compras; e assim também em todos os outros casos em que alegamos o acaso como causa, sempre há outra causa a ser encontrada, e nunca é realmente o acaso. E com efeito se poderia insistir que, se realmente houvesse algo como o acaso, isto se apresentaria como um problema genuíno, e se poderia levantar a questão de porque nenhum dos filósofos antigos teria algo a dizer dele [do acaso] quando da discussão sobre as causas relativas à geração e à corrupção, na medida em que aparentemente pensaram que nada ocorre por acaso”4.
No mesmo capítulo do texto da Física, Aristóteles elenca as diversas perspectivas propostas pelos filósofos (Empédocles, Demócrito, Anaxágoras) sobre o acaso, e, no capítulos seguintes (V e VI capítulos do Livro II da Física), empreende o exame da questão, em duas etapas gerais: Primeiramente, no capítulo V, verifica que o homem tem propósitos e que a Natureza possui tendências, o que normalmente determina o curso de uma ação delibrada ou dos processos naturais. No entanto, em ambos os casos tais ações (deliberadas) ou processos (naturais) acidentalmente envolvem resultados inexperados que se situam fora de sua progressão normal na direção do objetivo a que se dirigem, e tais resultados atribuímos ao acaso. Em segundo lugar, ele observa, no capítulo VI, que há uma espécie de desvio nos processos naturais, em que o atingimento da “intenção” normal do processo é de fato impedida por aquele desvio acidental. Ou seja, para Aristóteles, há um propósito tanto nas ações humanas como nos processos naturais, e o acaso é acidental a estes propósitos, na medida em que produz algo que originalmente poderia ter sido almejado. Assim, há na “causalidade acidental” um antecedente proposital necessário, porquanto da mesma forma que a existência substancial deve sempre subjazer à acidental, que é atributiva ou relacional, a causalidade direta que é intencional (quer humana, quer natural) deve sempre subjazer à causalidade acidental ou acaso5.
3. Acaso: Um resumo bastante acurado nos é oferecido por Mariano Artigas6, que expõe com muita propriedade uma perspectiva que faz convergir as considerações de Aristóteles e de Bohm quando afirma que o acaso é o resultado da confluência de cadeias causais independentes, na medida que os agentes naturais têm efeitos que se devem ao seu modo de ser (porque são substâncias) que lhe são próprios, bem como possuem efeitos que lhes são acidentais. Pois bem, neste último caso, frequentemente se dá a coincidência de diferentes causas sem que seja necessária tal coincidência, ou seja, ocorre uma confluência de séries causais independentes (fora do contexto descritivo das leis da natureza), não possuindo tal confluência uma razão pela qual se devesse dar (isto é, sem necessidade), razão esta que obdecesse a alguma lei da natureza por si mesma capaz de ser descrita. Por esta razão, conclui Artigas, “o acaso realmente existe na natureza [...bem como] não é devido unicamente à nossa ignorância, ainda que à vezes possa ser, porque o desconhecimento dos fatores que intervêm pode nos fazer pensar numa coincidência causal que, na realidade, não é assim”7.
Por fim, vale a pena relembrar a composição hilemórfica dos entes, constituídos por dois princípios reais complementares, a forma e a matéria. Se a forma redunda em ações causais necessárias, por sua vez a matéria implica indeterminação, não absoluta, mas relativa. O acaso, portanto, pode ser associado à matéria na medida em que, por sua indeterminação os agentes naturais falham na consecução do fim visado pela natureza, bem como cooperam na produção de outros efeitos indeterminados por outros agentes, e, assim, “nem tudo que de algum modo é tem causa própria [grifo nosso], mas somente as coisas que são por si mesmas [as substâncias]; as que são por acidente, não tem causa alguma”8.
1 Cf. Bohm, D. Causality and Chance in Modern Physics. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1957, p. 1-2.
2 Casanova, C. Reflexiones metafísicas sobre la ciência natural. Santiago: RIL Editores, 2007, p. 215.
3 Cf. Bohm, D., loc. cit.
4 Aristóteles, Física II c.4 195 b 30 – 196 a 10.
5 Este parágrafo está baseado nas considerações que o professor Philip Wicksteed, tradutor para a língua inglesa da edição bilíngüe grego-inglês de que nos temos valido (The Physics, Massachusetts: Harvard University Press, 1957), teceu nas respectivas curtas introduções que fez aos capítulos referidos.
6 Artigas, M. Filosofia da Natureza. São Paulo: Instituto Raimundo Lúlio (“Ramon Llull”), 2005.
7 Artigas, M., op. cit., p. 341-342.
8 Tomas de Aquino, S. Suma contra os Gentios III c.86 n.11, Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.