Brevíssimas anotações sobre as orações da Missa em memória de Santo Tomás de Aquino.

Daniel Nunes Pêcego – UFRRJ

Missa

Introdução. Estas notas são pequenos comentários acerca das orações presentes na Missa própria em memória de Santo Tomás de Aquino, celebrada em 28 de janeiro, dada da trasladação de seus restos mortais para Toulouse, França, local onde podem ser venerados . O objetivo maior é o de despertar a devoção ao Doutor Angélico, demonstrando, através das orações próprias do dia, que ele nada tinha da figura de um misantropo e antipático intelectual medieval, como talvez seja percebido pela Modernidade e Contemporaneidade.
Os textos das orações serão apresentados encabeçando cada um dos itens. No caso de estarem presentes duas orações, a primeira corresponde ao da Forma Ordinária do Rito Romano, enquanto que a segunda se refere à Forma Extraordinária do mesmo Rito.

1. Antífona de entrada.

“Os sábios refulgirão como o esplendor do firmamento; e os que ensinaram a muitos a justiça brilharão como estrelas para sempre” (Dn 12,3)

 A promessa da profecia de Daniel se cumpriu claramente em Tomás de Aquino. Tendo sido tão sábio na Terra e tendo permitido que Deus o fizesse assim, Tomás hoje brilha como o esplendor do firmamento, algo que foi reconhecido pela Igreja com a sua canonização em 13 de julho de 1323.
 Se a justiça consiste em dar a cada o que é seu, aquele que procura, através de seus estudos e pregações, levar os homens ao seu Criador e Salvador, procurando que Lhe dêem o Lhe é devido, só pode realmente brilhar como as estrelas.

2. Oração coleta.

“Ó Deus, que tornastes Santo Tomás de Aquino um modelo admirável pela procura da santidade e amor à ciência sagrada, dai-nos compreender seus ensinamentos e seguir seus exemplos. Por NSJC, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo”.

“Ó Deus que ilustrais a Igreja com a admirável ciência do bem-aventurado Tomás, Vosso Confessor, e a fecundais com a santidade das suas virtudes, concedei-nos a graça de compreender o que ele ensinou e de fielmente imitar o que ele fez. Por NSJC.

 O doutor da Igreja alia de modo admirável os mais elevados graus de ciência e sabedoria a uma grande santidade de vida. Nesse sentido, auxiliava a Igreja, os cristãos e a todos em geral de dois modos, sem antagonismos de qualquer espécie: Por sua doutrina e capacidade de expressão dos mistérios da fé e pela vida modelar na prática heróica das virtudes e na acolhida dos eficacíssimos dons do Espírito Santo. Isso fica claro pelo teor das orações coletas.
A atual oração afirma Santo Tomás como modelo admirável tanto pela procura da santidade como pelo amor à Teologia. A oração anterior à reforma litúrgica rejubila-se com as luzes dadas à Igreja pela admirável ciência de Tomás e pela fecundidade também a ela concedida pela santidade de suas virtudes.
 Mas a sagrada liturgia não se resume a louvar a Deus em Seus santos. O culto aos santos implica não apenas em reconhecer-lhes a grandeza e pedir-lhes a proteção e auxílio, mas também em imitar-lhe as virtudes, procurando aprender de suas vidas, e aplicando tais virtudes nas particularidades de nosso quotidiano. Daí por que ambas as orações roguem a Deus não somente a graça da compreensão da doutrina do Angélico, mas também a de seguir seus exemplos e imitar o que ele fez. Haverá alguém que realmente se pretenda tomista, dedicando-se ao estudo de sua obra e não busque sinceramente a santidade?

3. Oração sobre as oferendas.

“Que o vosso Espírito, ó Deus, nos conceda nesta celebração a luz da fé que iluminava Santo Tomás de Aquino na propagação da vossa glória. Por Cristo, nosso Senhor”.

 A fé é uma virtude teologal que incide sobre a inteligência, daí a referência, nesta oração, à luz e à iluminação. Aqui se pede a fé especialmente aplicada à propagação da glória de Deus. Faz lembrar o elogio feito pelo Crucificado ao Aquinate: “Escreveste bem a meu respeito!”. Escreveu e pregou bem sobre Deus e propagou a Sua glória, porque estava repleto da fé, também implorada pela Igreja nesta oração.

4. Antífona da comunhão.

“Nós anunciamos Cristo crucificado: Cristo, força e sabedoria de Deus” (1Co 1, 23s)

         O cerne da obra de Santo Tomás é a força e sabedoria de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo. Não por acaso, o esquema por ele utilizado na confecção da Suma Teológica adota o modelo exitus-redditus, ou seja, sai-se de Deus para a Ele retornar, por meio de Jesus Cristo.

5. Oração depois da comunhão.

“Nós vos pedimos, ó Deus, que, renovados por esta comunhão e exortados pelos ensinamentos de Santo Tomás de Aquino, vivamos em contínua ação de graças pelos dons que recebemos. Por Cristo, nosso Senhor”.

Conforme costume da época, o Aquinate assistia diariamente a uma outra Missa além da que celebrava. Possuía, como sabido, uma riquíssima vida sacramental em que se destacavam a confissão diária e um imenso amor à Eucaristia. Basta pensar no ofício ao Santíssimo Sacramento encomendado a ele pelo Papa.
A oração pede que a comunhão recebida renove os fiéis e que, seguindo os ensinamentos de Tomás, possam eles viver verdadeira vida eucarística, isto é, em ação de graças perene pelos inúmeros benefícios e graças recebidos.

Prefácio dos pastores.

O prefácio indicado para a Missa em memória de Santo Tomás de Aquino, o dos pastores, é como que um resumo de tudo o que se disse até agora. Nele se louva a Deus pela concessão da alegria de se celebrar tal santo e pela força concedida à Igreja pelo exemplo de vida, ensinamento da pregação (Tomás era frade da Ordem dos Pregadores) e auxílio de suas preces.

Conclusão.

Como se viu, Santo Tomás sabia aliar perfeitamente uma admirável sabedoria com grande caridade, sinais da santidade comemorada em sua missa votiva. Tendo como fundamento essa noção, evita-se recair no erro - gravíssimo em se tratando da pessoa do Aquinate - apontado pelo grande tomista que foi o Monsenhor Octávio Derisi, aqui parafraseado: há muitos estudos sobre Santo Tomás (o que é ótimo, desde que sejam sérios), mas pouca devoção a ele (o que é uma pena e até mesmo, pode-se dizer, uma injustiça).

Santo Tomás de Aquino faleceu em 07 de março de 1274.