A Teologia Fundamental Tomista

por Paulo Faitanin - UFF

Deus

1. Origem: Teologia, em seu sentido literal, é o estudo sobre Deus, do grego, theos, Deus; + logos, palavra, por extensão, estudo. Como ciência tem um objeto de estudo: Deus. Entretanto como não é possível estudar diretamente um objeto que não vemos e não tocamos, estuda-se Deus a partir da sua revelação. No Cristianismo isto se dá a partir da revelação de Deus na Bíblia. Este termo foi usado pela primeira vez por Platão, no diálogo A República, para referir-se à compreensão da natureza divina por meio da razão, em oposição à compreensão literária própria da poesia feita por seus conterrâneos. Mais tarde, Aristóteles na Metafísica, empregou o termo em numerosas ocasiões, com dois significados: teologia como o ramo fundamental da ciência filosófica, também chamada filosofia primeira ou ciência dos primeiros princípios, mais tarde chamada de metafísica por seus seguidores; teologia como denominação do pensamento mitológico imediadamente anterior à Filosofia, com uma conotação pejorativa, e sobretudo utilizado para referir-se aos pensadores antigos não filósofos (como Hesíodo e Ferécides de Siro). Tomás de Aquino diz que a teologia é quasi sermo de Deo - é como a palavra de Deus [In I Sent.q1,a4, arg. 1; In VI Met.lec.1,n25].

2. A Teologia Tomista:

(a) Teologia: O Aquinate utiliza a expressão doutrina sagrada para designar a teologia no sentido que o termo possui para nós hoje. O termo theologia ocorre poucas vezes no Corpus Thomisticum, cerca de 85 vezes. São também poucas vezes que o Aquinate utiliza a palavra theologia no sentido etimológico de discurso sobre Deus. O vocábulo theologia já se encontrava em Abelardo em seu sentido técnico de um estudo argumentado da doutrina cristã. Mas Tomás guarda reservas quanto ao uso deste termo. E isso pode explicar-se por sua preocupação em não confundir a teologia decorrente da doutrina cristã e a teologia que, segundo Aristóteles, é uma parte da filosofia [STh.I,q1,a1,ad2;In I Met. proem.].

(b) Método: Em filosofia o Aquinate estabelece duplo método: um ascendente, denominado resolutivo -resolutio-, que parte das determinações particulares às resoluções universais, que não é outra coisa que a indução; e outro descendente, denominado compositivo -compositio-, que inversamente parte das resoluções universais às composições particulares, que não é senão a dedução [In de Trin. lec.2,q2,a1,c3]. Em teologia, além do supracitado método filosófico, o Aquinate desenvolveu o método analógico. O método analógico consiste nisso que, mediante um nome, os conceitos podem ser utilizados para significar outras coisas. E isso ocorre porque distingue-se o significado de uma palavra, do modo como é utilizado para significar [CG.I,30]. Neste sentido, fica claro que os termos da linguagem, como as palavras e o nomes, nem sempre conservam o mesmo significado. Por este motivo, cabe estabelecer a seguinte divisão: termo unívoco diz-se do nome que significa uma mesma essência, que se diz de uma única natureza, ou seja, a conveniência do nome com a natureza [STh.I,q5,a6,ad3/q13,a10,c/In II Sent. 22,1,3,ad2], como quando se toma o nome coelho para designar a uma espécie de animal e que conserva sempre este mesmo sentido; termo equívoco indica a indução de significar várias coisas por um mesmo nome [CG.IV,49]. É sinônimo de ambigüidade, onde não se toma a similitude entre as realidades, mas a unidade do nome [CG.I,33]. Equívoco diz-se da não proporcionalidade entre o nome e a essência, ou seja, o nome é comum, mas as subtâncias diversas [S.Theo.I,q4,a2,c], como quando se toma o nome quarto para significar um número ordinal ou um cômodo da casa e, por fim, termo análogo diz-se de algo que comumente se aplica a muitos [In I Sent.22,1,3,ad2], segundo uma comparação por proporção [STh.I,13,a5,c], em que o nome, segundo um significado aceito, é posto na definição do mesmo nome, com outro significado [STh.I,13,a10,c], como quando se toma o nome liberdade para aplicá-lo ao sentido moral ou para usá-lo no sentido penal. A analogia tem fundamental valor e uso. É a comparação por proporção [STh.I,13,a5,c]; em analogia é necessário que o nome segundo um significado aceito seja posto na definição do mesmo nome, com outro significado [STh.I,13,a10,c], por isso, análogo se diz de algo que comumente se aplica a muitos [In I Sent.22,1,3,ad2]; a analogia pode ser: de proporcionalidade, quando os sujeitos possuem a perfeição significada de modos diversos, mas semelhantes, como por exemplo, ser dito do homem, do anjo e de Deus; de atribuição, quando um dos sujeitos possui a perfeição em sua plenitude e os demais por participação ou de modo derivado, como por exemplo, intelecto dito de Deus e por atribuição do homem e do anjo.

3. A Doutrina Sagrada - o que é? qual seu alcance?

(a) A Filosofia não dá conta de discursar sobre Deus: A Escritura inspirada e revelada por Deus não forma parte das disciplinas filosóficas. É útil que além das disciplinas filosóficas, haja outra ciência inspirada por Deus [STh.I,q1,a1,sed contra]. As disciplinas filosóficas são pesquisadas pela razão humana e a teologia se funda na revelação divina [STh.I,q1,a1,c]; e foi necessário que estas coisas divinas, que ultrapassam a razão do homem e que devem ser acolhidas na fé [STh.I,q1,a1,ad1], fossem comunicadas por revelação divina, já que a razão humana, sem a revelação, não alcançaria senão a apenas um pequeno número de verdades divinas.

(b) A Doutrina Sagrada é uma ciência: A teologia é ciência? O Aquinate abre a sua investigação teológica com esta pergunta. Contesta afirmativamente e estabelece o estatuto epistemológico da teologia, interrogando e analisando a natureza do discurso teológico no que concerne as suas diferenças com o discurso filosófico, sobre a unidade da teologia e sobre o seu método. A teologia é ciência divina [In I Sent.q1,a3, qc.2, sc.1;De Trinitate, pars 3,q5,a1,co.3] que impera sobre todas as demais ciências [In I Sent.q1,a1,c] e é mais excelente que as outras ciências por considerar o que de mais elevado há [STh.I,q1,a5,c]; e ela está para além da razão [In I Sent.q1,a5,ad3] sem, no entanto, opor-se à razão. A teologia considera as causas superioes, isto é, as causas divinas [De pot.q1,a4,c]. Mas os princípios da teologia são aqueles revelados por Deus; por isso, a teologia é ciência não enquanto toma os seus princípios de outras ciências naturais, mas da revelação divina [STh.I,q1,a2,c]. Deve-se dizer que a ciência sagrada pode tomar emprestada alguma coisa às ciências filosóficas, não que lhe seja necessário, mas em vista de melhor manifestar o que ela própria ensina, pois a partir dos conhecimentos naturais, de onde procedem as outras ciências, nosso intelecto é mais facilmente introduzido nos objetos que ultrapassam a razão e são a matéria desta ciência [STh.I,q1,a5,ad2]. Tudo que se encontra compreendido na doutrina sagrada se refere a um único sujeito dado na revelação: Deus. Por esta razão, a teologia é uma ciência uma e única [STh.I,q1,a3,c]. A teologia não é uma ciência prática, pois a ciência prática se refere a obras que podem ser praticadas pelo homem, mas a teologia trata de Deus, de quem os homens são a obra maior. Por essa razão, a teologia não é ciência prática, mas sobretudo especulativa [STh.I,q1,a4,sed contra].

(c) A Doutrina sagrada é sabedoria: Sábio, em qualquer gênero, é aquele que toma em consideração a causa suprema desse gênero. Quem considera simplesmente a causa suprema de todo o universo, que é Deus, merece por excelência o nome de sábio. Ora, a sabedoria é o conhecimento das coisas divinas. Portanto, a doutrina sagrada merece por excelência o nome de sabedoria [STh.I,q1,a6,c]. Como sabedoria que é, não cabe à teologia estabelecer os princípios das outras ciências, mas apenas julgá-los. Tudo o que nessas ciências se encontrar como contrário à verdade da ciência sagrada deve ser condenado como falso [STh.I,q1,a6,ad2].

(d) Deus é o sujeito desta ciência: O sujeito de uma ciência é aquilo de que se fala nessa ciência. Ora, na ciência sagrada fala-se de Deus: daí o seu nome teologia, discurso sobre Deus. Logo, Deus é o sujeito desta ciência [STh.I,q1,a7,sed contra].

(e) A Teologia se vale de argumentos: As outras ciências não argumentam em vista de demonstrar seus princípios, mas para demonstrar a partir deles outras verdades de seu campo. Assim também a doutrina sagrada não se vale da argumentação para provar seus próprios princípios, as verdades de fé, mas parte deles para manifestar alguma outra verdade [STh.I,q1,a8,c]. A teologia se valerá da argumentação para disputar, como se disse, não para demonstrar os seus princípios, mas para inclusive debater e combater os que se opõem a ela, aos seus artigos de fé. Mas se o adversário não acredita em nada das verdades reveladas, não resta nenhum modo de provar com argumentos os artigos da fé: pode-se apenas refutar os argumentos que oporia à fé [STh.I,q1,a8,c]. É muito próprio desta doutrina usar argumentos de autoridade, e isso não derroga a sua dignidade, porque o argumento de autoridade fundado sobre a razão humana é o mais fraco de todos, o que está fundado sobre a revelação é o mais eficaz de todos [STh.I,q1,a8,ad2]. Já se disse que a doutrina sagrada utiliza a razão humana não para provar a fé, o que lhe tiraria o mérito, mas para iluminar alguns outros pontos que esta doutrina ensina. Assim, a doutrina sagrada usa também da autoridade dos filósofos quando, por sua razão natural, puderam atingir a verdade [STh.I,q1,a8,ad2].

(f) A Metáfora nas Sagradas Escrituras: Por metáfora entende-se a representação de uma verdade mediante uma imagem, parábola. Ora, a Sagrada Escritura emprega metáforas. Portanto, o uso de metáforas nas Sagradas Escrituras é pedagógico e conveniente para que o que transcende à realidade material, isto é a realidade espiritual, seja compreendida pelas metáforas, imagens e comparações materiais, a fim de que as pessoas simples as compreendam [STh.I,q1,a9,c]. As Escrituras têm como princípio que as mesmas coisas significadas pelas palavras signifiquem algo por sua vez: um significado histórico ou literal, segundo o qual as palavras designam certas coisas; significado espiritual, segundo o qual as coisas significadas pelas palavras designam ainda outras coisas e a significação espiritual pode ser: de sentido alegórico, quando as realidades da lei antiga significam as da lei nova, pois na Sagrada Escritura é principalmente pelas coisas anteriores que as coisas posteriores são signifcadas [Quodl. VII,a15,ad5]; de sentido moral, quando as coisas realizadas no Cristo, ou aquilo que Cristo representa, são o sinal do que devemos fazer; de sentido anagógico, quando estas mesmas coisas significam o que existe na glória eterna [STh.I,q1,a10,c]. Portanto, deve-se dizer que a multiplicidade dos sentidos em questão não cria nenhum equívoco, ou qualquer outra espécie de multiplicidade. Como foi dito, esses sentidos não se multiplicam em razão de que uma só palavra significaria várias realidades, mas porque as próprias realidades, significadas pelas palavras, podem ser sinais de outras realidades [STh.I,q1,a10,ad1].