F azer o bem não é fácil

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Conversando com Deus!

1. Ficha Técnica: Título original: Conversations with God; Ano, 2006; Spiritual Cinema Circle; Gênero: Drama; Origem: Estados Unidos; Duração: 109 minutos; Tipo: Longa; Diretor: Stephen Simon; Ator: Henry Czerny, Vilma Silva.

2. Sinopse: Adaptação do livro homônimo escrito por Neale Donald Walsch, que conta sua própria história que inspirou e transformou a vida de milhões de pessoas. Neale sofreu um grave acidente de carro no qual quebrou o pescoço. Sem emprego, mais tarde o vemos como um mendigo sem teto, pedindo comida e lutando para se manter vivo. Neale vai se sentindo cada vez pior e facassado, o que faz crescer sua raiva e amargura. A existência ou não de Deus é sua maior questão. E ele encontra as respostas ao longo de muitas conversas... O livro de Neale foi lido por mais de 7 milhões de pessoas em 36 línguas ao redor do mundo.

3. Análise: Não há nada que estabeleça que para sermos castos, humildes, fiéis e bons devamos ser pobres... podemos ser castos, humildes, fiéis e bons, sendo ricos. Isso é mais ou menos o vértice deste filme e de sua argumentação. O argumento do roteiro deste longa de auto-ajuda pode ser resumido com o seguinte: Deus é rico; ora sou filho de Deus; logo, nada me impede de também ser rico. Em lógica trata-se do que costumamos chamar de argumento falacioso. Uma falácia não leva em conta a verdade do que está em questão e comete também outros erros. Qualquer teólogo e bom conhecedor da Bíblia, em especial do Novo Testamento, sabe que somos filhos de Deus, mas adotivos e que fomos adotados mediante o sangue de Seu verdadeiro filho - Cristo - que por livre e espontânea vontade assumiu nossas misérias. Note-se que o verdadeiro filho de Deus não reivindicou para si qualquer riqueza, senão que levou uma vida de pobreza, embora não abominasse inclusive o uso do dinheiro ilícito para fazer coisas lícitas ou que não advertisse acerca da difícil aceitação do reino sem se converter a Deus e usar na justiça os bens terrenos. Ora, se somos filhos adotivos em Cristo, segue-se que para sermos efetivos filhos de Deus deveremos seguir os exemplos de Cristo. Nesta perspectiva, este argumento não é válido para justificar o enriquecimento, mesmo que fosse a partir da ajuda espiritual que possa favorecer a vida de outrem. Não se trata aqui de simonia, ou seja, de vender os dons do espírito, porque nem mesmo é o que se propõe. Propõe-se apenas justificar a idéia de que a prosperidade financeira não se alheia à vida espiritual. De fato a Igreja nem Cristo pregaram isso. O que Cristo ensina é que não é possível servir a dois senhores: ao dinehiro e a Deus. Os dois exemplos emblemáticos de jovens ricos tratados nos evangelhos nos ensina que um apegou-se à sua riqueza e não seguiu a Cristo, mesmo sentindo-se chamado a segui-Lo e o outro, convertendo-se, dividiu suas riquezas, reparando os danos que seu enriquecimento injusto causou a muitas pessoas. Portanto, a conversão a Cristo suporá no mínimo a divisão da riqueza, o que nem sempre muitos estão dispostos a fazê-lo. Bem próximo do que defende a teologia da prosperidade este filme de auto-ajuda bem no estido americano - e porque não brasileiro - promove uma pseudo-idéia de que não há contra-ponto em ser rico e propalar uma espiritualidade, quando sabemos que não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo: um lado da corrente será danificado, sabemos quais são os conselhos de Cristo, cabe agora saber se movidos pela força que impera em nosso desejo desordenado de enriquecer se vale a pena embarcar nesta idéia não tão cristã, que apregoa a acessibilidade ao céu plenamente compatível com o enriquecimento, apresentado nestes moldes. Cabem aqui as palavras de S. Máximo o Confessor († 662), o qual começa por exortar a não antepor nada ao conhecimento e ao amor de Deus, mas depois passa imediatamente a aplicações muito práticas: «Quem ama Deus não pode reservar o dinheiro para si próprio. Distribui-o de modo “divino” [...] do mesmo modo segundo a medida da justiça » [Capítulos sobre a caridade, Centúria 1, cap. 1: PG 90, 965].