![]()
© 2005-2008 Aquinate
Portal
Aquinate>>Caleidoscópio>>Atualidades>>Personalidades>>Pe. Fernando Pascual |
Pe. Fernando Pascual: morte do tomismo? Entrevista de S. Francisco de Sales com S. Tomás de Aquino!
Prof. Dr. Paulo Faitanin - UFF
|
Pe. Pascual |
Para considerar este tema, nos atrevemos a formular algumas perguntas ao próprio Tomás de Aquino. Não sabemos se no céu permitem entrevistas. Em meio da visão beatífica, não deve resultar fácil voltar às pequenezas da terra. Esperamos, porém, não incomodar ao mestre Tomás. Para isso, nos valeremos da mediação de outro santo, Francisco de Sales, patrono dos jornalistas, um homem que sempre se caracterizou por sua caridade amável relacionamento.
São Francisco de Sales: Agradecemos muito a santo Tomás que interrompe uns instantes de sua contemplação para responder algumas perguntas sobre temas da atualidade no planeta terra. Tomás: podemos dizer que o tomismo está morto?
Santo Tomás: Sou eu que agradeço a oportunidade de retornar a falar a quem vive no mundo material. A palavra “tomismo” pode ter vários significados. Por isso, a pergunta deveria ser mais precisa.
Francisco: Talvez possamos entender o “tomismo” como o conjunto de idéias que deixastes aos homens depois de sua morte.
Tomás: Bem, as idéias têm uma vida um pouco especial. Uma verdade é verdade sempre, a pensem ou não a pensem os homens. Neste sentido, as idéias válidas que formulei, o que poderíamos chamar de o “tomismo perene”, não podem morrer, ainda que existam muitos aprendizes de coveiros. As verdades são eternas, são as mentiras que têm os pés curtos.
Mas pode ocorre que uma geração esqueça descobertas do passado e adote idéias falsas ou imprecisas. Algo semelhante ocorreu com o tomismo, se bem, como espero dizer mais adiante, também podemos encontrar hoje não pouco pensadores que se identificam com muitas idéias minhas.
Francisco: Os homens do século XXI não entendem tua maneira de fazer filosofia. Vivem em outro contexto cultural. Não será que, neste sentido, o tomismo está morto e bem morto?
Tomás: É bom matizar isso. Há alguns que não entendem nem querem entender. Falta-lhes essa preparação para acolher outras perspectivas, para estudar com calma os problemas e para considerar o que há de ‘eterno’ em todas as verdades (algo que enfatizam de modo especial alguns platônicos). Decretam a morte das idéias de um passado que não chegaram a conhecer de verdade (ainda que hajam lido os escritos tomistas com pouca abertura da mente e muitos preconceitos). Outros, por outro lado, navegam com carinho entre meus livros e são capazes de tirar atualizações para problemas vivos a partir de idéias desenvolvidas há muitos séculos.
Francisco: Tu usaste muitas idéias de Aristóteles, e há quem diga que Aristóteles também está morto e que tu morres com ele.
Tomás: Eu sempre me considerei antes teólogo que filósofo. Entretanto, utilizei idéias filosóficas que, no meu século XIII, eram muito atuais, “da hora”, como se diz agora na terra, ainda que as utilizasse sempre com um saudável espírito crítico. Nem tudo o que é atual vale e nem tudo o que é antigo está superado. Isso é algo que muitos não compreenderam e, por isso, dogmatizam e declaram a morte do tomismo com demasiada pressa e com muito pouco sentido histórico.
Francisco: Entretanto, nos dizem que não há problema considerar, algumas vezes, Aristóteles no século XIII, mas no século XXI...
Tomás: Creio que Aristóteles (como Platão) continua sendo atual na terra. Basta folhear a quantidade de estudos que se produzem sobre eles. Não estão mortos estes dois grandes pensadores gregos, como não pode morrer nenhuma idéia verdadeira, tenha sido dita por quem for a quem quer que seja. Como diz essa frase atribuída a santo Ambrósio e que tanto gosto, tudo que seja verdade, independente de quem a diga, vem do Espírito Santo.
Francisco: Há verdade também entre os filósofos maus e entre os hereges?
Tomás: Sobre este ponto aqueles que enterram o tomismo poderiam aprender muito. No método da escolástica escutávamos a todos com muito respeito. Estudem, por exemplo, o que era uma discussão pública, o que chamávamos ‘questões disputadas’.
Tratava-se de reunir o maior número de afirmações sobre todos os temas, com uma grande liberdade de espírito. Se fossemos falar de Deus, por exemplo, vemos se existe (opiniões a favor) ou se não existe (opiniões contra). Depois distinguimos o que procede e vale do que não procede e é falso. Porém, mesmo quando criticasse a opinião equivocada (com o máximo respeito por quem a emitiu), sempre tentávamos ver os motivos de seu erro, os elementos válidos de seu pensamento, para não eliminar o bom junto com o mau.
Alguns pensadores modernos têm demasiada pressa e fulminam com condenações absolutas as idéias do passado, a metafísica, o pensamento escolástico. Se tivessem um pouco de espírito verdadeiramente científico, como o que tínhamos nós, seriam mais prudentes, mais abertos, e saberiam aproveitar os elementos válidos da Escolástica.
Francisco: Já ser que vocês se consideravam como anões nos ombros de gigantes. Mas os modernos dizem que vocês se limitavam a repetir o que os outros diziam...
Tomás: É verdade que prestávamos grande atenção ao passado. Mas isso forma parte do método científico: recolher o que os outros descobriram para avançar no saber. Os modernos fazem o mesmo, ainda que às vezes fiquem com o que estudaram por último e esquecem as outras dimensões do saber.
Observemos por um momento as revistas científicas. Estão cheias de citações de outros. Mas se o artigo é do ano de 2005, as citações têm que ser muito recentes (de 2003, 2004 e 2005), para no ficar “antiquado”. Vem só dado, dado e dado. Mas falta-lhes a perspectiva do passado e, por isso, alguns se limitam ao empírico, ao experimental. É triste viver deste modo, deixando de lado as descobertas muito valiosas da filosofia e da cultura humanista, descobertas que não são mensuráveis com uma régua nem visíveis pelas lentes de um telescópio.
Tenho que aclarar outra coisa: repetíamos, sim, muitas frases do passado, mas as repensávamos em novos contextos e, às vezes, as enriquecíamos. Por isso um anão que sobe nos ombros de um gigante pode ver mais longe que o gigante: seu horizonte é muito mais amplo.
Francisco: Tomás, temos de ir terminando. Queria perguntar-te acerca de um tema da atualidade. Em bioética muitos criticam essa definição de pessoa da Escolástica: a pessoa, dizíeis, é uma “substância individual de natureza racional” (em latim: “naturae rationalis individua substantia”). Muitos pensam que esta definição está superada. Que acha?
Tomás: De novo se vê como os modernos têm pressa e não investigam bem o que dizem. A definição de pessoa que acabas de recordar não é da Escolástica, mas de Boécio (autor do século VI d.C.). Eu a citava com prazer, mas sem ser um simples repetidor. Numa oportunidade notei que essa definição poderia ser melhorada, sem abandoná-la e, então, propus uma outra. Esta é a grande diferença entre o tomismo e os modernos. O tomismo busca aprofundar e compreender o válido do passado para aproveitar o bom e melhorar o melhorável. Os modernos, por outro lado, querem começar do zero, abandonam um passado que não conhecem e que citam mal e chegam a conclusões bastante pobres.
Sobre a definição de Pessoa de Boécio: trata-se de uma definição metafísica, e a metafísica vai muito mais além do que se pode ver no laboratório. Alguns autores, que não sabem como funciona a metafísica, abandonam a definição de Boécio e a minha e definem a pessoa só por alguns acidentes previamente selecionados. Isso, em bioética, causou confusões enormes, e à aceitação de comportamentos tão desumanos como o aborto ou a eutanásia.
Francisco: Tomás, a pergunta para concluir: morreu o tomismo ou pode sobrevivir de algum modo?
Tomás: O tomismo não morreu. Os que vivem na terra podem ver a esplêndida riqueza de sociedades tomistas (como a Pontifícia Academia Santo Tomás de Aquino, ou a Sociedade Internacional Tomás de Aquino, que têm suas páginas na Internet) e as atividades nacionais e internacionais promovidas por insignes tomistas e estudiosos de minhas idéias (idéias que nem sempre compartem, mas conhecem e respeitam com um espírito intelectual aberto e criativo, autenticamente escolástico).
Não creio, de modo absoluto, haver dito tudo, nem creio que é “tomismo” limitar-se a repetir o que eu tenha dito com maior ou menor acerto. Mas ninguém é um simples repetidor. Voltar a apresentar o pensamento de um autor do passado em novo contexto cultural faz com que se gerem reflexões vivas e enriquecedoras.
Gostaria muito que quem decreta a morte do tomismo lesse a bela encíclica de João Paulo II sobre a fé e a razão (Fides et ratio, 1998) para descobrir a vitalidade de um tomismo que tem uma longa tradição de nomes e de tendências (como se pode ver na lista de autores que se apresentam em http://www.geocities.com/tomistas/index.htm e em http://stthaquinas.8m.com/thomists.htm).
Sabemos que são Francisco de Sales e santo Tomás de Aquino perguntariam e responderiam com maior profundidade e beleza. Gozam da visão de Deus, e com Desu tudo se vê de um modo mais pleno. Pedimo-lhes perdão por nosso atrevimento. O desejo que anima esta entrevista é simples: ser prudentes na hora de julgar acerca da vitalidade ou da morte de idéias do passado, pois nos permitirá abrir horizontes de verdades filosóficas e teológicas que podem ser-nos de grande utilidade no mundo contemporâneo (e em qualquer época histórica).
Parece-me que o tomismo, com o perdão de quem pensa o contrário, goza de saúde. Certamente, não de toda a que mereceria, mas segue vivo. Nem sempre aparece com toda sua força entre aqueles que controlam e monopolizam amplos setores da universidade, da cultura e da difusão do pensamento. Mas isso não significa sepultar mais fundo santo Tomás. O tomismo não pode morrer, simplesmente porque seu espírito, genuinamente aberto à busca da verdade, vive escondido em cada homem e mulher que deixa de lado preconceitos e pressas para percorrer o caminho da filosofia; de quem saber dar as mãos com carinho, que não é sinônimo de servilismo acrítico, de quem nos precederam com simplicidade e honestidade na busca das verdades mais profundas sobre a vida, sobre o homem e sobre Deus.
Autor: Padre Fernando Pascual
Traduzido e publicado com a permissão do autor.