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Visão: do fisiologismo à intencionalidade!
Paulo Faitanin - Depto. Filosofia/UFF
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1. Questão: Os olhos são órgãos do sentido externo que mais comumente nos informam acerca do mundo que nos rodeia, ou seja, um instrumento da visão, pela qual o homem vê a cor, sem o odor do fruto. Aristóteles conferiu-lhe certa primazia sobre os demais sentidos. Estes órgãos, nos animais vertebrados, são estruturas complexas localizadas em cavidades ósseas da cabeça. Os antigos metaforicamente denominavam-nos ‘faróis da alma’. Não deixa de ter certo fundamento esta comparação, com a diferença de que os faróis emitem sinais de luz e o olho procura captar tal sinal.
2. Análise: O próprio do olho é captar a luz. A luz é uma radiação eletromagnética de um corpo luminoso que produz no olho uma sensação característica segundo a intensidade desta radiação – a cor. Por cor entende-se a sensação produzida no órgão do sentido humano, quando a luz de diferentes comprimentos de onda o atinge. Denomina-se visão a percepção da sensação que informa pela luminosidade a figura, a cor, bem como outras características dos corpos. A diferença fundamental é a que há entre olhar e ver. O olhar é atividade orgânica, mas ver é atividade intencional. O corpo olha, mas quem vê é a alma. A filosofia ocidental tem dado supremacia ao sentido da visão. A TV é, sem dúvida, um instrumento tecnológico elaborado, sobretudo, para a utilidade dos olhos, a tal ponto que baste olhar, sem a necessidade de ver.
O vício do olhar sem ver é um grande problema da atualidade. As pessoas se olham, mas não se conhecem, porque não se vêem. É verdade que muitas vezes é preferível perceber e não ver. Pelos olhos entram muitas desordens no espírito. Não deixa de ser verdadeiro afirmar que o que os olhos não vêem o coração não sente. No império ocidental da visão, tardou-se a superação da concepção preconceituosa da privação da referida função fisiológica.
O fino raciocínio não depende da capacidade de ver. Depende, sim, muitas vezes da disciplina da visão, ou seja, em não ver, em não captar imagens. O fluxo de imagens e informações que nossa visão recebe faz com que muitos não exercitem o pensamento, o raciocínio. Pensar é quase reproduzir imagens. Não raro, denota-se que o raciocinar por imagens é um recurso apelado, muitas vezes, por indivíduos que motivados pela exuberância da exposição de imagens, inculcada pelo modelo de sociedade vigente, não facilita a abstração.
Uma imagem vale mais do que mil palavras? Depende! Há falsas imagens e elas não substituem mil palavras de verdade. Valem mais mil verdades ditas do que uma mentira vista. É preciso resgatar a função objetiva do olhar, pois a exploração de sua subjetividade, próprio do ‘olhar’ do relativismo cultural, inoculou o vírus do não pensar por abstração, mas por imaginação. Para pensar requer-se, às vezes, fechar os olhos e disciplinar a imaginação e, em outras, abri-los, para ver a verdade.
Como vimos acima, a visão é muito mais do que uma mera sensação. Se sua função fisiológica sempre foi a de informar o dado sensível correlato ao órgão do sentido, sua função gnosiológica atrela-se à sua dimensão moral. Tomás de Aquino explora toda sua dimensão fisiológica, mas não deixa de correlacioná-la à sua dimensão moral. Mais do que a cor, a visão também leva consigo uma intencionalidade, com a qual ‘colore’ o que se vê e o que a alma padece. A intencionalidade do olhar é tão importante quanto seu fisiologismo e colabora eficientemente para a constituição do conhecimento aplicado à dimensão moral da ação humana.