![]()
© 2005-2008
Aquinate.
Portal
Tomista>>Caleidoscópio>>Atualidades>>Análises>>O ouvido |
O ouvido e o silêncio!
Paulo Faitanin/UFF
|
|
1. Introdução: O contraponto que há entre ‘ver’ e ‘silenciar’ é significativo. Tendemos mais ao hábito de ‘ver’ do que ao de ‘escutar’. Preferimos um ao outro, ainda que se saiba que escutar seja sábio! Ensinam alguns que o silêncio é amigo da sabedoria e a disciplina do ouvido. A ciência é muito mais apelativa ao conforto da visão. Contudo, se no campo da ciência a primazia é a visão – a ponto de reduzir os experimentos físicos ao campo observacional, da ação de observar, do ver – no filosófico e especialmente no espiritual o é a escuta. É preciso aprender saber ouvir, cuja virtude denomina-se obediência.
2. Análise: A escuta é o entender do ouvir. Uma coisa é ouvir e outra é escutar. Escutar é ouvir com sentido e entendendo o que se ouve. Ouço sons, mas escuto uma melodia. Decifrar o som resulta no escutar. Ouço palavras, mas não as entendo, por isso não as escuto, não as guardo. Só as guardo, quando as entendo. Aí então se revestem de sentido o que ouço.
O próprio do órgão ouvido é captar o som. Fisiologicamente falando o som é uma vibração que se propaga num meio elástico com uma freqüência e intensidade capaz de ser percebida pelo ouvido, produzindo nele uma sensação característica correlativa à intensidade, por exemplo, o agudo. Portanto, a audição é a percepção da sensação que informa pela vibração do som a figura, a extensão do som, bem como outras características produzidas pela vibração dos corpos. Igualmente, há uma dimensão intencional da audição que se incorpora à dimensão auditiva pela qual não só ouve, mas também escuta.
Ocupa um lugar muito especial dentro da mística tomasiana a doutrina do silêncio, relacionada à escuta e à oração. Mais do que proferir palavras, o guardião da oração é o silêncio. Como que brotando do mais íntimo do intelecto, a oração individual não precisa vocalizar-se. Não obstante, mesmo à oração individual pode-se acrescentar a palavra, seja para excitar a devoção interior, seja para a satisfação de uma dívida, mediante tudo o que recebeu de Deus, incluindo a palavra, seja por certa redundância da alma no corpo, causada por uma grande afeição e cumplicidade entre a alegria interior do coração e a exultação exterior pela língua [STh. II-II, q. 83, a.12, c].
Escutar é sábio, falar, ainda que nobre em si mesmo, não é necessário, senão só para comunicar a verdade.