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A boca: função moral e espiritual, para além da fisiológica!
Paulo Faitanin/UFF
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1. Introdução: Escutar é sábio, falar, ainda que nobre em si mesmo, não é necessário, senão só para comunicar a verdade. Do que não se pode falar é melhor calar! Isso, em outras palavras, já dizia um renomado filósofo de nosso tempo. O silêncio é uma virtude. Por isso, de falar poderemos nos equivocar e até arrepender-nos muitas vezes, mas nunca de calar, preservar o silêncio, como nos ensina São Josemaria Escrivá (Caminho, ponto 639). Não é verdadeiro simploriamente dizer que ‘quem cala consente’.
2. Análise: O calar é às vezes pedagógico, quando não se pretende ensinar a verdade a quem não a compreenderá. Que a boca fale a verdade sempre para a pessoa certa, no momento certo e no lugar certo. Fora isso, pode-se vilipendiar a verdade proferida, distorcida, falseada ou deslocada do contexto. O ensinamento da verdade exige prudência e sabedoria, para que pérolas não sejam jogadas fora. A verdade é o que dá sabor ao falar.
O referido acima nos permite agora entender que o próprio da boca, este importante órgão do sentido externo, além de ser instrumento para a fala é o que propriamente capta o sabor das coisas, a ‘verdade’ das coisas. A boca por um lado fala a verdade e por outro capta o sabor, como uma verdade das coisas. O sabor é sensação que certas substâncias, enzimas exercem sobre o paladar, produzindo na língua a percepção do gosto dos corpos que lhe afetam, como doce, amargo, salgado, azedo e ácido. Portanto, o paladar é a sensação de algum sabor percebido pela boca como um gosto: a gustação.
Merece destaque um aspecto gastronômico da função fisiológica da boca: a alimentação. Muitos distúrbios do aparelho digestivo nascem do ‘vício’ da boca e dos outros sentidos, ligados à alimentação. A boca é o órgão responsável pela captação do sabor. O alimentar-se é reduzido, não raro, ao saborear e não ao nutrir-se. O requinte é um vício que elucida bem este fato. Há fome de sabores e não de alimentos.
Sem sombras de dúvidas é pela boca que se desenvolve uma grande gama de vícios da humanidade. Não me refiro ao vício do impropério, de falar o que não se deve, mas ao da gula e suas espécies. Falar desta sensação e não considerar sua dimensão moral é efetivamente não o colocar em seu devido lugar e importância, dentro do processo gnosiológico humano. Igualmente é pela boca que o homem se santifica! As virtudes ensinadas pela boca e por ela praticadas. Falar a verdade é uma virtude. A boca, enquanto órgão dos sentidos, exerce primaz função nesta virtude.
No contexto espiritual são profundos os ensinamentos de Cristo ao dizer-nos que “Não é o que entra pela boca que faz ao homem impuro... mas o que sai da boca e vem do coração; é isso que pode fazer alguém impuro. É do coração que vêm os maus pensamentos que levam ao crime, ao adultério e outras imoralidades. São os maus pensamentos que levam a mentir, a roubar e caluniar. São essas coisas que fazem alguém impuro. Mas comer sem lavar as mãos não torna ninguém impuro.”(Mt 15,11-20). E ainda em Eclesiástico lê-se (37,16-18): “O princípio de todas as obras é a razão, antes de qualquer ação vem a reflexão.E a raiz dos pensamentos é o coração. Dele nascem quatro ramos: O bem, o mal, a vida e a morte. Esses quatro são dominados sempre pela língua”.