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Tomás e a encíclica Spe salvi de Bento XVI!
Paulo Faitanin - Depto. Filosofia UFF
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1.Tema: O Doutor Angélico é citado na encíclica Spe salvi publicada pelo Papa Bento XVI. Sem medo de errar pode-se dizer que é uma encíclica que respira a doutrina agostiniana, a do Doutor da graça, de quem verdadeiramente bebeu da fonte o Aquinate. Mas esta é a segunda vez que Bento XVI cita o Aquinate. Na primeira, o citou na exortação apostólica Sacramentum caritatis, com relação à definição do sacramento da eucaristia como sacramento da caridade [Summa Theologiæ, III, q. 73, a. 3]. No entanto, esta última cita, na encíclica, gira em torno de mais uma das virtudes teologais a saber a esperança. Depois de ter tratado sobre a Caridade ou o amor de Deus na encíclica Deus caritas est, de 25 de dezembro de 2005, Bento XVI medita agora sobre a carta de São Paulo aos Romanos (8, 24) onde é dito: Pois nossa salvação é objeto de esperança; e ver o que se espera, não é esperar. Acaso alguém espera o que vê? E sua meditação recorre, num aspecto, ao ensino do Aquinate.
2. Análise: Em Spe salvi n. 7, em referência a uma difícil passagem relacionada à definição da fé, Bento XVI recorreu à explicação do Aquinate. Vejamos o contexto:
“No décimo primeiro capítulo da Carta aos Hebreus (v. 1), encontra-se, por assim dizer, uma certa definição da fé que entrelaça estreitamente esta virtude com a esperança. À volta da palavra central desta frase começou a gerar-se desde a Reforma, uma discussão entre os exegetas, mas que parece hoje encaminhar-se para uma interpretação comum. Por enquanto, deixo o termo em questão sem traduzir. A frase soa, pois, assim: «A fé é hypostasis das coisas que se esperam; prova das coisas que não se vêem». Para os Padres e para os teólogos da Idade Média era claro que a palavra grega hypostasis devia ser traduzida em latim pelo termo substantia. De fato, a tradução latina do texto, feita na Igreja antiga, diz: «Est autem fides sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium – a fé é a “substância” das coisas que se esperam; a prova das coisas que não se vêem». Tomás de Aquino [Summa Theologiae, II-IIae, q. 4, a. 1], servindo-se da terminologia da tradição filosófica em que se encontra, explica: a fé é um «habitus», ou seja, uma predisposição constante do espírito, em virtude do qual a vida eterna tem início em nós e a razão é levada a consentir naquilo que não vê. Deste modo, o conceito de « substância» é modificado para significar que pela fé, de forma incoativa – poderíamos dizer « em gérmen» e portanto segundo a «substância» – já estão presentes em nós as coisas que se esperam: a totalidade, a vida verdadeira”.
A interpretação Tomasiana dá suporte à afirmação que Bento XVI tomaria mais adiante ao estabelecer que a fé cristã é também uma esperança que transforma e sustenta a nossa vida ou Fé é substância da esperança [n.10].