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Esperança cristã: a encíclica de Bento XVI!
Paulo Faitanin - Depto. Filosofia UFF
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1.Tema: Spe salvi é a encíclica publicada pelo Papa Bento XVI e que a Sala de Imprensa da Santa Sé tornou pública no dia 30 de novembro de 2007, às 11:30 hs. A apresentação da encíclica ficou a cargo dos cardeais Georges Martin Cottier, O.P., pró-teólogo emérito da Casa Pontifícia e de Albert Vanhoye S. I., professor emérito de Exegese do Novo Testamento do Pontifício Instituto Bíblico. O texto da encíclica estava disponível em latim, italiano, francês, alemão, espanhol, português e polonês para a imprensa a partir das do dia 30 de novembro de 2007. Esta é a segunda encíclica de Bento XVI e gira em torno de mais uma das virtudes teologais a saber a Esperança. Depois de ter tratado sobre a Caridade ou o amor de Deus na encíclica Deus caritas est, de 25 de dezembro de 2005. A encíclica medita sobre a carta de São Paulo aos Romanos (8, 24) onde é dito: Pois nossa salvação é objeto de esperança; e ver o que se espera, não é esperar. Acaso alguém espera o que vê?.
2. Análise: Em Spe salvi n. 2 alude ao fato de que a palavra do Evangelho não é só informativa, mas também performativa, porque apefeiçoa e muda quem a ouve. Revoga a crença num Deus pessoal, pois não são os elementos do cosmo, as leis da matéria que, no fim das contas, governam o mundo e o homem, mas é um Deus pessoal que governa as estrelas, ou seja, o universo; as leis da matéria e da evolução não são a última instância, mas razão, vontade, amor: uma Pessoa. E se conhecemos esta Pessoa e Ela nos conhece, então verdadeiramente o poder inexorável dos elementos materiais deixa de ser a última instância; deixámos de ser escravos do universo e das suas leis, então somos livres [n.5]. Identifica Cristo com o verdadeiro filósofo, com aquele que sabia ensinar a arte essencial: a arte de ser rectamente homem, a arte de viver e de morrer... Cristo diz-nos quem é na realidade o homem e o que ele deve fazer para ser verdadeiramente homem. Ele indica-nos o caminho, e este caminho é a verdade. Ele mesmo é simultaneamente um e outra, sendo por isso também a vida de que todos nós andamos à procura. Ele indica ainda o caminho para além da morte; só quem tem a possibilidade de fazer isto é um verdadeiro mestre de vida. [n.6]. Desiludida com a fé estreitada no âmbito da razão, Bento XVI narra como a proposta de Marx foi aceita pelo homem do século XIX em razão de que Karl Marx recolheu este apelo do momento e, com vigor de linguagem e de pensamento, procurou iniciar este novo passo grande e, como supunha, definitivo da história rumo à salvação, rumo àquilo que Kant tinha qualificado como o « reino de Deus ». Tendo-se diluída a verdade do além, tratar-se-ia agora de estabelecer a verdade de aquém. A crítica do céu transforma-se na crítica da terra, a crítica da teologia na crítica da política. O progresso rumo ao melhor, rumo ao mundo definitivamente bom, já não vem simplesmente da ciência, mas da política – de uma política pensada cientificamente, que sabe reconhecer a estrutura da história e da sociedade, indicando assim a estrada da revolução, da mudança de todas as coisas. Com pontual precisão, embora de forma unilateralmente parcial, Marx descreveu a situação do seu tempo e ilustrou, com grande capacidade analítica, as vias para a revolução. E não só teoricamente, pois com o partido comunista, nascido do manifesto comunista de 1848, também a iniciou concretamente. A sua promessa, graças à agudeza das análises e à clara indicação dos instrumentos para a mudança radical, fascinou e não cessa de fascinar ainda hoje [n.20]. O progresso, a ciência e a técnica não poderão redimir a dor e o sofrimento humanos [n.25]. Não é a ciência que redime, mas o amor [n.26]. Bento XVI apresenta uma síntese do que até então propora, o que pode ser resumido da seguinte forma: o homem tem muitas esperanças, na ciência, na política e inclusive na fé, mas se esta última não for abertura, nem mesmo ela poderá livrar-nos do mal estar de não possuirmos uma verdadeira esperança [n. 31]. E prossegue: precisamos das esperanças – menores ou maiores – que, dia após dia, nos mantêm a caminho. Mas, sem a grande esperança que deve superar tudo o resto, aquelas não bastam. Esta grande esperança só pode ser Deus [n.32]. Logo, considera o sofrimento, demarcando a impossibilidade humana de fugir-lhe e a incensatez de não reconhecê-lo necessário em Cristo [n.36-39]. Tendo falado da via crucis do homem nesta vida, pelo sabor do sofrimento que o ronda, destaca agora a doutrina do Juízo [n.40]. O ateísmo, identificado como um moralismo, diluiu a crença comum no Juízo final. Como crer num Deus justo que permite o sofrimento? [n.42]. Reitera a esperança no Juízo dizendo: a fé no Juízo final é, primariamente, e sobretudo esperança – aquela esperança, cuja necessidade se tornou evidente justamente nas convulsões dos últimos séculos. Estou convencido de que a questão da justiça constitui o argumento essencial – em todo o caso o argumento mais forte – a favor da fé na vida eterna. A necessidade meramente individual de uma satisfação – que nos é negada nesta vida – da imortalidade do amor que anelamos, é certamente um motivo importante para crer que o homem seja feito para a eternidade; mas só em conexão com a impossibilidade de a injustiça da história ser a última palavra, é que se torna plenamente convincente a necessidade do retorno de Cristo e da nova vida [n.43]. E prossegue num belo texto onde associacia, correlaciona a graça com a justiça: De nada adianta o protesto contra Deus em nome da justiçaa. Um mundo sem Deus é um mundo sem esperança (cf. Ef 2,12). Só Deus pode criar justiça. E a fé dá-nos a certeza: Ele fá-lo. A imagem do Juízo final não é primariamente uma imagem aterradora, mas de esperança; a nosso ver, talvez mesmo a imagem decisiva da esperança. Mas não é porventura também uma imagem assustadora? Eu diria: é uma imagem que apela à responsabilidade. Portanto, uma imagem daquele susto acerca do qual, como diz Santo Hilário que todo o nosso medo tem lugar no amor [Tractatus super Psalmos, Sal 127, 1-3: CSEL 22, 628-630.]. Deus é justiça e cria justiça. Tal é a nossa consolação e a nossa esperança. Mas, na sua justiça, Ele é conjuntamente também graça. Isto podemos sabê-lo fixando o olhar em Cristo crucificado e ressuscitado. Ambas – justiça e graça – devem ser vistas na sua justa ligação interior. A graça não exclui a justiça. Não muda a injustiça em direito. Não é uma esponja que apaga tudo, de modo que tudo quanto se fez na terra termine por ter o mesmo valor. Contra um céu e uma graça deste tipo protestou com razão, por exemplo, Dostoëvskij no seu romance « Os irmãos Karamazov ». No fim, no banquete, eterno, não se sentarão à mesa indistintamente os malvados junto com as vítimas, como se nada tivesse acontecido. Aqui gostaria de citar um texto de Platão que exprime um pressentimento do justo juízo que, em boa parte, permanece verdadeiro e salutar também para o cristão. Embora com imagens mitológicas mas que apresentam com uma evidência inequívoca a verdade, ele diz que, no fim, as almas estarão nuas diante do juíz. Agora já não importa o que eram outrora na história, mas só aquilo que são de verdade. « Agora [o juiz] tem diante de si talvez a alma de um [...] rei ou dominador, e nada vê de são nela. Encontra-a flagelada e cheia de cicatrizes resultantes de perjúrio e injustiça [...] e está tudo torto, cheio de mentira e orgulho, e nada está direito, porque ela cresceu sem verdade. E ele vê como a alma, por causa do arbítrio, exagero, arrogância e leviandade no agir, se encheu de emproamento e infâmia. Diante de um tal espectáculo, ele envia-a imediatamente para a prisão, onde padecerá os castigos merecidos [...]. Às vezes, porém, ele vê diante de si uma alma diferente, uma alma que levou uma vida piedosa e sincera [...], compraz-se com ela e manda-a sem dúvida para as ilhas dos bem-aventurados ». [Gorgia, 525a-526c]. Jesus, na parábola do rico epulão e do pobre Lázaro (cf. Lc 16,19-31), apresentou, para nossa advertência, a imagem de uma tal alma devastada pela arrogância e opulência, que criou, ela mesma, um fosso intransponível entre si e o pobre: o fosso do encerramento dentro dos prazeres materiais; o fosso do esquecimento do outro, da incapacidade de amar, que se transforma agora numa sede ardente e já irremediável. Devemos aqui destacar que Jesus, nesta parábola, não fala do destino definitivo depois do Juízo universal, mas retoma a concepção do judaísmo antigo de uma condição intermédia entre morte e ressurreição, um estado em que falta ainda a última sentença [n. 44]. Termina a encíclica evocando Maria como estrela da esperança [n.49-50].