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Holomovimento!
Rodolfo Petrônio - PUC/RJ
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Este texto visa apresentar brevemente o conceito de holomovimento, segundo o físico anglo-americano David Bohm (1925?-1993). Segundo este, a perspectiva cartesiana, sob a égide da qual se desenvolve a ciência clássica, nos apresenta uma visão de mundo fragmentária, fruto do método analítico de Descartes. Ainda que a teoria da relatividade e particularmente a mecânica quântica tenham demandado uma nova ordem à luz da qual devamos estabelecer uma perspectiva diferente da realidade natural, ainda estamos sob o império de um pensamento que se debruça sobre partes, componentes, para analisá-las e posteriormente sintetizá-las num quadro mais amplo. Para compreendermos o que Bohm tem em mente, ele nos expõe a analogia da lente. Numa lente (a ordem presente da ciência), ampliamos cada ponto da realidade, digamos P, e o representamos, junto com os demais, segundo uma imagem, digamos P*; e ambos estão numa correspondência 1-1, de tal forma que cada ponto representa algo, uma parte, da realidade parcial e simples que deve se juntar a outros na busca por uma visão unificada do mundo. A analogia da lente aplica-se perfeitamente quando verificamos o que ocorre presentemente com os métodos e processos chamados de renormalização aplicáveis ao nível quântico, os quais dependem de experimentos que identifiquem pequenos “pedaços” do mundo, as partículas, para depois reuni-los num quadro mais amplo. Este quadro é a ordem explicada, isto é, são os processos e componentes imersos no espaço-tempo que são rastreados segundo as diversas teorias, métodos e procedimentos presentemente em curso. A contrapartida é a analogia do holograma. Neste, o todo encontra-se dobrado numa região pequena do holograma, como se cada “ponto” P* da imagem holográfica contivesse os vários pontos P1, P2, ..., Pn da realidade total e complexa presente no holograma. Obviamente, as vizinhanças próximas àquela sobre a qual dos debruçamos para olhar (desdobramento) apresentam maior resolução e aquelas que estão mais distantes da vizinhança, menor resolução. Assim, o todo encontra-se no holograma (ordem implicada). Portanto, nos propõe Bohm, devemos nos voltar para a ordem implicada, que é uma espécie de totalidade fora do espaço-tempo, que se encontra em movimento (o holomovimento), desdobrando-se no espaço-tempo sob a forma de fragmentos, que nossa visão parcial e fragmentária extrai e descreve por meio de análise e síntese, e dobrando-se num todo indiviso e dinâmico, acerca do qual nosso ferramental teórico ainda é insuficiente, pois precisamos de um mudança na forma de vermos a realidade, não mais em componentes e partes fragmentadas mas imersa num fluxo contínuo e indiviso. Tanto Bohm quanto colaboradores, especialmente Basil Hiley, investigaram (e continuam investigando) alguns tipos de abordagem algébrica para a descrição do holomovimento, especialmente a abstração (é como eles denominam a extração) do espaço-tempo a partir da dinâmica interna do holomovimento.
Entendemos que a tradição filosófica, especialmente consubstanciada na metafísica tomista da teoria hilemórfica, aproxima-se extraordinariamente da proposta de Bohm, por várias razões: em primeiro lugar, a intuição de Bohm foi ela própria metafísica, ou seja, buscou fundamentar a ordem física (a ordem explicada) num outro tipo de ordem (a ordem implicada), fundamento da primeira, que se situa além do espaço-tempo, isto é, do que é direta ou indiretamente mensurável; em segundo lugar, porque uma totalidade indivisa nos aponta diretamente para a matéria-prima, sujeito comum da mutabilidade do natural; em terceiro lugar, porque o holomovimento possui uma dinâmica que pode ser associada à dinâmica da própria matéria-prima (que deixamos para outra oportunidade apresentar). Logo, por meio de uma álgebra apropriada cujo esforço de obtenção deve-se a Bohm e colaboradores, podemos retomar o diálogo perdido nos séculos XVI e XVII entre a metafísica e as ciências da natureza, entre ontologia e epistemologia, retomando o projeto de Aristóteles de uma visão integrada (cosmovisão) da realidade natural, consubstanciada nos oito livros de sua Física.