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A Teologia Tomista de Reginald Garrigou-Lagrange [21/02/1877-15/02/1964]
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Garrigou-Lagrange |
Vida: Contran-Marie
Garrigou-Lagrange nasceu em Auch (França) aos 21 de fevereiro de
1877. Foi em sua cidade natal que recebeu a primeira educação
cristã e freqüentou a escola elementar. Realizou seus estudos
ginasiais e liceais em diversas cidades. E os concluiu em Tarbes. Entre
todas as matérias, aquela em que brilhava extraordinariamente era
a filosofia. Certo dia, um inspetor de visita ficou de tal forma impressionado
com suas respostas que não quis mais perder de vista o jovem estudante
prodígio. O inspetor era Jules Lachelier, um dos mais célebres
filósofos franceses do século passado, que, não tendo
conseguido conciliar sua fé católica com o pensamento kantiano,
renunciara à filosofia para conservar a fé e deixara de ensinar
e escrever. Depois da publicação de Sens commun et la
philosophie de l'être (a primeira obra de Garrigou), o velho
ex-inspetor manifestou ao jovem ex-estudante a sua amargura por não
ter conhecido antes a filosofia escolástica, que teria fornecido
a solução para os problemas de sua existência.
Concluído o liceu, Garrigou orientou-se para a medicina, inscrevendo-se
na faculdade de Bordeaux, onde estudou durante dois anos, vivendo uma vida
extraordinariamente austera para um universitário. Nesse meio tempo
sentiu-se chamado à vida sacerdotal, razão pela qual ingressou
na Ordem Dominicana em 1897. Com vinte anos de idade, no convento de Amiens,
sede do noviciado da província de Paris, recebeu o hábito
dos Pregadores e o nome de Reginaldo. Fez seus estudos teológicos
sob a orientação do Padre Ambroise Gardeil, um dos mais insignes
teólogos da época, célebre pelo ensaia Le donné
révélé et la théoIogie. Ordenado sacerdote
em 1902, fez cursos de aperfeiçoamento em teologia em Saulchoir,
para onde há pouco fora transferido o Studium da província
de Paris. Em 1904, seus superiores enviam-no a estudos complementares de
filosofia na Sorbonne, onde teve como professor de teorética Henri
Bergson, e de história da filosofia grega, Victor Brochard. Começou
a lecionar em 1905 em Saulchoir, para onde fora nomeado professor de história
da filosofia. Desde então, empenhou-se em aprofundar o pensamento
de São Tomás e da escola tomista, empresa essa que tomaria
toda a sua longa existência. Fundador, com A.M. Jacquin, da Revue
des Sciences Philosophiques et Théologiques (1907) e, com M.
Barge, da Revue de la Jeunesse para os jovens (1909).
Em 1909, o Padre Cormier, mestre geral da Ordem e fundador do Colégio
Angélico, chamou a Roma o Padre Garrigou, então com trinta
e dois anos, para lecionar teologia dogmática. Nesse meio tempo,
o jovem já se havia destacado no ambiente filosófico com uma
obra de importância capital: Le sens commun et ia phiiosophie
de l'être (1909). No Angelicum, ele lecionou De
Revelatione por oito anos e depois comentou sucessivamente todas as
partes da Summa Theologiae. De 1917 em diante, ministrou um curso
de teologia espiritual, que teve um enorme êxito e do qual, além
de estudantes de teologia, participaram também prelados, mestres
de noviços e até mesmo superiores gerais.
A partir de 1922, começa a passar suas férias de verão
em Meudon, junto com Jacques e Raissa Maritain, com os quais tinha fundado
os cercles de St. Thomas. Do círculo de Meudon participava
um grupo de amigos intelectuais, para os quais Garrigou fazia palestras
sobre teologia e espiritualidade. O grupo toma-se sempre mais compacto:
em 1931, são cento e cinqüenta, entre os quais nomes célebres
como Charles Joumet, Dalbiez, van der Meer, O'Sullivan. Por sugestão
do Padre Garrigou, é redigido um diretório para os membros:
De la vie d'oraison. Ao transmiti-lo aos interessados, Raissa adverte:
"Nos baseamos em são Tomás e são João da
Cruz." Faz-se voto de oração. Naquele pequeno oásis,
reino de são Tomás e são João da Cruz, assiste-se
a um verdadeiro florescimento de graças místicas e conversões;
em uma menina, desabrochou a flor de uma puríssima devoção
a São Tomás; um jovem de vinte anos converte-se, lendo são
João da Cruz.
Em 1923, publica Perfection chrétienne et contemplation selon
saint Thomas d'Aquin et saint Jean de la Croix, obra que o coloca imediatamente
entre os grandes mestres da vida espiritual do nosso tempo. Ao mesmo tempo,
adquire grande reputação também como pregador de exercícios
espirituais, atividade que absorve uma notável parcela do seu tempo.
Além disso, também é muito requisitado e apreciado
como diretor espiritual.
Em 1955, é nomeado consultor do Santo Ofício. Já em
idade muito avançada e com a saúde bastante abalada, Garrigou
sente que o cargo pesa-lhe grandemente, mesmo porque não tem experiência
das questões tratadas, em sua maioria de caráter mais prático
do que especulativo. Frequentemente sai das reuniões inteiramente
esgotado. Entretanto, participa delas de muito bom grado. É um admirador
do Cardeal Ottaviani, apreciando sua capacidade de conduzir discussões,
resumir e sintetizar questões, posições e argumentos.
Foi professor na escola dos dominicanos na Saulchoir, Bélgica (1905-1909),
e depois no Ateneo Angelicum (posteriormente, Pontifícia Universidade
Romana de Santo Tomás) de 1909 a 1960. Foi professor de muitos notáveis
intelectuais católicos deste do século XX, entre eles de M.-D.
Chenu, O.P., e de Karol Wojtyla, futuro Juan Pablo II, de quem foi consultor
e supervisor de tesis. Sé se ausentou do Angelicum um ano e durante
as férias, que aproveitava para pregar na Itália, França,
Inglaterra, Holanda, Canadá e América do Sul. Em
1960, sua saúde torna-se ainda mais débil, forçando-o
a abandonar todos os seus cargos. Certo dia encontram-no debruçado
sobre a escrivaninha, com os olhos cheios de lágrimas. Perguntam-lhe
a razão daquilo e ele confidencia: "Meus últimos anos
serão terríveis. Senhor, diante de ti não passarei
de uma besta, ut jumentum factus sum apud te. É tremendo.
Mas, se assim o queres, seja feita a tua vontade." E assim foi. Por
muito tempo perdeu a lucidez daquela possante mente que por tantos anos
tinha irradiado raios de vivíssima luz. Mas soube suportar tal tortura
com admirável resignação. Nos momentos sempre mais
raros de lucidez, confidenciava àqueles que o assistiam: "Estou
contente de ser assim, já que Deus assim o quer. Sobre a terra uma
coisa apenas é necessária: amar a Deus. E mesmo no
meu estado ainda posso amá-lo”.
Ao convocar o Concílio, João XXIII nomeou o Padre Garrigou
conselheiro da Comissão Preparatória Central, mas o padre
teve que renunciar; porém, assegurou ao Papa, dedicaria seu sofrimento
pelo bom êxito do Concílio. Morreu em Roma no Convento de Santa
Sabina em 15 de fevereiro de 1964.
Ainda dois dados para completar o perfil biográfico de Garrigou:
um sobre sua atividade de docente, outro sobre suas atividades de pensador.
Padre Garrigou transcorreu toda a sua vida ensinando. Um de seus discípulos,
e mais íntimo amigo, assim recorda sua atividade de docente: "Era
um professor extraordinário. Sabia colocar os problemas, apresentar
a situação das questões, ressaltar seu interesse e
suas dificuldades, mostrar suas conexões e as repercussões
lógicas, próximas e remotas das doutrinas, a fecundidade inexaurível
de urna verdade solidamente estabelecida, as conseqüências, frequentemente
não notadas pelos próprios autores, de um erro de princípio.
Tais cursos cheios de vida exerceram uma influência profunda e altamente
formadora durante meio século sobre várias gerações
de estudantes, seculares ou regulares, de todas as partes do mundo, passaram
pelo Angélico".
Para o conhecimento do pensador, ou melhor, o humus do qual germinou
o pensamento de Garrigou, é muito significativo este testemunho do
mesmo amigo: "Jamais se permitia leituras de fantasia... Podia-se contar
nos dedos de uma só mão os romances modernos que o Padre Garrigou-Lagrange
tivera tempo e gosto para ler. Ele lembrava de ter lido Marie Chapdelaine
durante uma viagem ao Canadá... Alguma vez terá lido um romance
policial, escutado rádio, visto a tevê? Creio que não.
Não precisava ouvir um disco para pôr-se a trabalhar, embora
não carecesse de gosto musical. Essa informação retrata
muito bem o pensador Garrigou, que, de uma parte, evita todas as distrações
que possam fazer-lhe perder tempo, ao passo que de outra, olha direto para
a substância das coisas para compreendê-la, não vê
nenhum proveito em deixar-se pela fosforescência da cultura moderna.
Mondin, B. Os grandes Teólogos do Século Vinte. São Paulo: Paulus, 2003, pp. 419-423.
Alguns outros datos biográficos: O Pe. Garrigou-Lagrange foi Membro da Academia Pontifícia Romana de Santo Tomás de Aquino. Foi escritor prolífico em temas filosóficos, teológicos e espirituais. Sua bibliografia completa lista mais de 770 livros, artigos e correções. Também se notabilizou com suas primeiras obras nas que atacou, uma por uma, as teses do modernismo. Discípulo de Tomás e defensor das famosas 24 teses tomistas e da distinção real entre essência e existência. Estudou especialmente Caetano, Báñez e João de Santo Tomás. Em Teologia destaca-se a sua grande obra de espiritualidade Les trois âges de la vie intérieure prélude de la celle du ciel de 1938. Despois do Concílio Vaticano II, sofreu injustas críticas por haver criticado as inovações teológicas. Hoje se reconhece a importância, a sabedoria e a santidade deste ilustre tomista.
Obras: Le sens commun, Paris 1909 (41936); Dieu. Son existence et sa nature, Paris 1914 (121953); De Revelatione, Rom-Paris 1918 (41945); Perfection chrétienne et contemplation selon S. Thomas d'Aquin et S. Jean de la Croix, Paris 1923; Le sens du mystère chez St. Thomas, Paris 1934; Commentarius in Summam Theologiae S. Thomae, 7 volumes, Rom-Turin-Paris 1938-1954; La Mère du Sauveur, Lyon 1941; La synthèse thomiste, Paris 1946 (21950).
Bibliografia: Bibliographie von B. Zorcolo in Angelicum 42 (1965) 200-272; und von P. Ramirez in Angelicum 14 (1937) 5-37.
Referências: Revue Thomiste 64 (1964) 181-199; - Freiburger Zeitschrift für Philosophie und Theologie 78 (1964) 390-395; - Rivista di ascetica e mistica 9 (1964) 226-240; - Vie spirituelle 111 (1964) 237-245; - Angelicum 42 (1965) 3-272; - Christliche Philosophie im katholischen Denken des 19. und 20. Jahrhunderts II (1988) 426-429; - J. Chélini, L'Église sous Pie XII, 2. Bd., Paris 1989, 91-92. 101-102; - Studi tomistici 45 (1992) 313-326; - LThK3 V (1995) 295; - Una Voce Korrespondenz 27 (1997) 216-226; - D. Berger, Ratio fidei fundamenta demonstrat, in: H. Wolf (Hrsg.), Die katholisch-theologischen Disziplinen in Deutschland 1870-1962, Paderborn 1999, 95-128.