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A Teologia Tomista das realidades terrestres de Dominique Chenu [07/01/1895-11/02/1990]
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M. Dominique Chenu |
Vida: Marie-Dominique
Chenu nasceu em soisy-sur-seine, nas proximidades de Paris, aos 7 de janeiro
de 1895. Concluída a escola elementar, ingressou no seminário.
Depois de alguns anos, sentiu-se chamado à vida religiosa e tornou-se
dominicano. Seu ingresso na Ordem dos Pregadores ocorre em 1913. Sobre o
significado desse passo, Chenu nos deixou o seguinte testemunho: "Em
tal passo, havia uma aspiração à vida contemplativa
que comportava uma separação muito profunda. Recebi assim
uma luz interior que me incitava à vida contemplativa e à
separação que ela exige. No meu caso, a separação
concretizou-se de maneira mais brutal do que habitual-mente, pelo fato de
que, para poder seguir o meu chamado, tive que sair da França. Hoje,
essa partida, esse exílio, se vos agrada chamá-lo assim, não
significaria grande coisa. Mas, naquele tempo, recor- do a emoção
dos meus pais quando parti para uma nação estrangeira, a Bélgica.
Isso representava um corte muito abrupto, de maneira que o isolamento do
convento e meu afastamento para o exterior traduziam, de modo ainda mais
preciso, a separação do mundo que a vida contemplativa comporta".
O noviciado, obviamente, contribuiu para reforçar ainda mais essa
concepção de vida contemplativa como vida de separação
do mundo. Mas o jovem Chenu não tardou aperceber a falta de atualidade
de tal concepção. "Concluído o noviciado",
confidenciou-nos ele mesmo, "retomei à França. Um dia,
em Paris, tive oportunidade de passar pela Rue du sentier, o coração
do mundo dos negócios. Tinha vinte anos. Fui brutalmente tomado por
um movimento de defesa de minha vida contemplativa. Perguntei-me: 'Que coisa
se faz lá dentro? ' Mas veio-me logo a resposta: 'É para isso,
é exata-mente para estes que eu sou enviado! Retomar ao mundo, eis
a lei da minha vida, incluindo também a da minha perfeição
pessoal. ' Esse é um
dos traços típicos da minha vocação, como também
de minha missão de teólogo. Eu ainda iria reviver a mesma
experiência mais tarde, ao passar pelo aglomerado industrial de Lille-Roubaix-Tourcoing,
quando tive o mesmo sentimento de uma missão a cumprir pelo mundo.
Assim, hoje compreendo melhor essa interação da vida contemplativa,
que me protegeu do tumulto e da dispersão, com a presença
no mundo, sem a qual o teólogo não poderia realizar sua missão.
“Se, em algumas circunstâncias de minha vida, mantive-me firme
e suportei certas coisas, não o fiz tanto devido à minha perfeição
pessoal quanto pela aspiração, o desejo de realizar essa missão
por aqueles que estavam à espera dos seus benefícios.”
Esse testemunho é muito belo, e eloq11ente por si mesmo, para que
ousemos empaná-lo com nossas considerações. Concluído
o noviciado, depois de uma breve estadia em sua pátria, Chenu foi
enviado a Roma, ao Colégio Angélico, para realizar seus estudos
filosóficos e teológicos. Lá teve por mestre o célebre
Garrigou-Lagrange, que o introduziu no estudo aprofundado de são
Tomás de Aquino.
Concluiu seus estudos teológicos em 1920, obtendo o doutorado em
teologia. No mesmo ano, foi nomeado professor da faculdade de teologia de
Le Saulchoir (nas proximidades de Paris).
Naqueles anos, estava em curso por toda parte, mas especialmente na França,
na Itália e na Alemanha, uma grande retomada dos estudos sobre a
Idade Média. Um dos centros propulsores desse despertar era exatamente
o convento em que nosso teólogo ensinava. Em Le Saulchoir estavam
na época alguns dos melhores medievalistas e tomistas daquele tempo:
Gardeil, Héris, Mandonnet, Roland-Gosselin. Com eles, Chenu empreendeu
a renovação do estudo de são Tomás e dos demais
mestres do pensamento medieval, aplicando às suas obras o método
histórico.
Algumas das mais belas e importantes obras do nosso autor são fruto
dessa investigação: Introduction à l' étude
de saint Thomas (1950); La théo1ogie comme science au XIIIe siec1e
(1942); La théo1ogie au XIIe siec1e (1957).
Mas o interesse de Chenu não estava voltado apenas para o passado.
Sua vocação, como já vimos, levava-o a se ocupar dos
problemas atuais da humanidade. Inclusive seus estudos históricos
eram colocados a serviço dessa causa, pois forneciam-lhe preciosos
ensinamentos de como a teologia deve enfrentar as tarefas que lhe São
impostas pela situação presente.
Suas reflexões sobre a situação atual da teologia e
suas novas tarefas, foram coligidas no pequeno livro Une é cole de
théologie (1937). Apesar de distribuído pro manuscripto em
poucos exemplares, esse escrito alcançou uma certa notoriedade e
atraiu a atenção das autoridades eclesiásticas. Em
1942, foi colocado no Index. Padre Chenu soube do fato pelo rádio.
O golpe foi particularmente grave e penoso, porque naquele momento ele era
o reitor do convento (fora nomeado em 1932). Entretanto, suportou o golpe
com admirável espírito de fé. Naquela noite se apresentou
no refeitório e colocou seus frades a par do acontecido. E o fez
com muita simplicidade e humildade. Depois, concluiu: "Evidentemente,
um homem condenado pela Igreja não pode mais ser vosso superior.
Sendo impossível comunicar-me com o Superior Geral da Ordem, esta
noite entregarei minha demissão do cargo às mãos do
arcebispo de Paris.”.
À noite, apresentou-se ao cardeal Suhard, que o recebeu afetuosamente
e lhe disse: "Não se inquiete, padre. Dentro de vinte anos,
todos nós falaremos como Você.”.
Mas por que motivo Une é cole de théologie fora condenado?
As razões não estão claras. Padre Congar escreveu:
Ainda hoje (vinte e três anos depois do acontecido), depois de ter
interrogado e procurado, depois de tomar conhecimento de muitos detalhes,
sinto-me tão ofendido diante de tanto contra-senso e incompreensão
que não consigo ver nesse caso nada além de um erro ou de
um golpe malvado sem Justificativa.
A condenação teve conseqüências as mais dolorosas
para o, nosso teólogo: alem do cargo de reitor, teve que abandonar
também o de professor. Ademais, teve também que deixar Le
Saulchoir e tomar o caminho do exílio. Ficou por muitos anos forçado
à inatividade. Isso pode ser constatado com uma simples olhada em
sua bibliografia: de 1940 a 1950, encontramos pouquíssimas publicações
e assim mesmo todas de modestas dimensões.
Depois da guerra, em 1946, foi nomeado professor da Sorbonne, onde permaneceu
até 1953. Em seguida, foi reincorporado ao corpo de ensino de Le
Saulchoir. Foi o início de sua reabilitação. Esta,
porém, nunca foi completa. Prova disso é o fato de que o padre
Chenu só pôde participar do Concílio Vaticano II na
qualidade de perito pessoal de um bispo de Madagascar. O que, contudo, não
o impediu de ser um dos teólogos mais apreciados e ouvidos durante
o conclave conciliar. Foi substancial sua contribuição à
elaboração do Esquema XIII.
Só para dar uma idéia do elevado prestígio de que goza
no mundo da cultura, recordarei alguns dos cargos por ele exercidos: diretor
do Bulletin thomiste de 1924 a 1934; diretor da Revue des sciences philosophiques
et théologiques de 1928 a 1934; fundador do Institut d'études
médiévales, anexo à Universidade de Montreal (em 1932);
membro da Société de philosophie, de Lovaina; presidente da
Société thomiste; colaborador de numerosas revistas de teologia,
filosofia e história; consultor do Secretariado para os não-crentes.
Obras: A produção
científica de M. D. Chenu compreende quase quatrocentos escritos,
entre os quais doze livros, sem contar as resenhas literárias. Esse
notável complexo literário pode ser facilmente dividido em
duas partes: uma abrange os escritos de caráter histórico,
e a outra os de caráter especulativo. Ao primeiro grupo pertencem
as obras já citadas: lntroduction à l'étude de
saint Thomas d'Aquin (Université de Montréal, Paris-Montreal,1950);
La théologie comrne Science au XIII siecle (3 ed., Vrin,
Paris, 1957); La théologie au XII siecle (idem, 1957). Trata-se
de três estudos fundamentais para a compreensão do desenvolvimento
da teologia durante o período áureo da escolástica
e para o entendimento da obra e do pensamento de São Tomás.
Ao grupo de caráter teórico pertencem as obras que asseguraram
a Chenu uma posição de proeminência entre os teólogos
do nosso século. Nesse grupo, as obras mais significativas são:
Pour une théologie du travail (Seuil, Paris, 1955); La
parole de Dieu (Du. I Cerf, Paris, 1964), em dois volumes, intitulados
respectivamente La foi dans l'intelligence; o primeiro, e L
'évangille dans le temps; o segundo. Essa obra compreende cerca
de oitenta ensaios publicados anteriormente em diversas revistas, tratando
de problemas de teologia fundamental e de teologia das realidades terrestres.
Também pertencem ao segundo grupo (de caráter teórico)
as seguintes obras: La Théologie est-elle une science? (Fayard,
Paris, 1957); Peuple de Dieu dans le monde (Ou Cerf, Paris, 1966).
Um primeiro olhar aos escritos de Chenu pode dar a impressão de haver
um certo dualismo em sua obra: parece que de um lado está o historiador,
de outro o teólogo; de um lado, como disse o próprio Chenu
em uma conferência a um grupo de seminaristas, parece
estar "um velho medievalista de certa fama, imerso na leitura de textos
antigos, estofado de erudição, ligado aos velhos séculos
da cristandade, em uma tradição que se obstina a manter-se
em meio ao mundo contemporâneo; do outro, um jovem que se lança
indócil na confusão do mundo contemporâneo, extremamente
sensível aos seus apelos, pronto a enfrentar os problemas delicados
do mundo e da Igreja. E, por isso, discutido e até mesmo suspeitado
junto a certas pessoas". Na realidade, assegura-nos o próprio
interessado, há um só e idêntico Chenu; nele, o historiador
da idade Média e o teólogo moderno constituem uma só
coisa. Foi o historiador que ensinou ao teólogo, a distinguir nas
coisas, aquilo que é perene daquilo que é mutável,
e que o tornou sensível aos sinais dos tempos. Somente um profundo
conhecedor da história da Igreja, da humanidade e da teologia, poderia
delinear as soluções que ele elaborou para os difíceis
problemas da natureza e das tarefas da teologia, da missão da Igreja
no momento presente, do valor da matéria, das realidades terrestres,
do trabalho, da socialização e de outros aspectos típicos
do nosso tempo.
A produção de Chenu no campo especulativo não é
muito vasta. Ele excluiu conscientemente a hipótese de reescrever
a teologia do início ao fim, como se tudo o que foi feito pelos teólogos
do passado carecesse de valor. Chenu não compartilha o parecer daqueles
que consideram a teologia de nossos antepassados como totalmente envelhecida
e morta. Segundo ele, no que se refere a certos problemas, ela pronunciou
uma palavra que vale para sempre e cunhou uma linguagem teológica
que não é defeituosa nem incompreensível. Ao contrário,
ele fez ver que a teologia medieval possui um repertório lingtiístico
inexaurível, além de doutrinas de valor perene. Chenu não
concebe a teologia como uma empresa individual, que cada qual pode tentar
por conta própria, mas sim como um trabalho da Igreja inteira, um
trabalho que se realiza lenta e continuamente, através da obra dos
teólogos em particular. Coerente com essa concepção,
ele assumiu a tarefa de ampliar o saber teológico em algumas direções
ainda inexploradas, mas de capital importância, dada a situação
em que se debate atualmente a humanidade. E, assim, enfrentou os problemas
do valor da matéria, do trabalho, da socialização,
das tarefas do laicato, da natureza da teologia. E foi nesses pontos que
sua contribuição ao desenvolvimento da teologia tomou-se determinante.
BATTISTA MONDIN, Os grandes teólogos do século XX. São Paulo: Paulus, 2003, pp.547-586.