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S. Tomás e a arte de bem pensar

embrião humano na fase de blastocisto Paulo VI [1963-1978]

Na tarde de sábado, dia 20 de Abril, Paulo VI tomou parte numa das sessões do Congresso Internacional organizado na Pontifícia Universidade « Angelicum » de Roma, por ocasião do VIl centenário da morte de S. Tomás de Aquino, e dirigiu o seguinte discurso aos estudiosos que dos diversos países vieram a Roma para o mesmo Congresso:

Sentimos grande satisfação por Nos encontrarmos aqui entre vós, que vos reunistes para celebrar a memória de S. Tomás de Aquino, no VII centenário da sua morte. Alegramo-Nos, pela homenagem que assim é tributada ao Santo Doutor e pelo significado de que ela pode revestir-se para a Igreja de Deus e para a cultura do mundo contemporâneo, pelo fato de vir de tão grande número de pessoas autorizadas.

Atualidade do Doutor Angélico

Com efeito, esta assembléia reconhece a grandeza de S. Tomás de Aquino sob um tríplice aspecto: da virtude moral, inteiramente orientada no sentido de mostrar e facilitar o caminho da ascensão do espírito humano para Deus [D. Th. C. XV, I, 633]; da ciência filosófica, tão exaltada pelo Nosso grande predecessor Leão XIII na conhecidíssima Encíclica Aeterni Patris, de 4 de Agosto de 1879 [Acta, pp. 225-284]; e da especulação teológica que, segundo o mesmo célebre documento pontifício e segundo a confirmação da história, coloca S. Tomás de Aquino entre os maiores mestres do pensamento religioso. A Nossa satisfação aumenta ainda, ao vermos na homenagem prestada ao insigne mestre medieval, não só um reconhecimento da sua grande personalidade e da forte e decisiva influência que a sua obra exerceu no pensamento do seu tempo e no dos séculos seguintes, mas também um testemunho claro e significativo da sua atualidade.

A vossa presença, excelentíssimos Senhores, ilustres professores e inteligentes estudiosos, demonstra que a voz de S. Tomás de Aquino não é um simples eco do além-túmulo, como a de tantos outros gloriosos pensadores, dos quais a nossa culura moderna se compraz em recordar a história e em decifrar o esforço intelectual que eles realizaram para penetrar os segredos do universo, ou em descobrir nas suas especulações pessoais expressões ricas de originalidade e elegância. A vossa presença demonstra, sobretudo, que essa voz do incomparável filho de São Domingos fala ainda aos nossos espíritos, como a de um mestre vivo, cujo ensinamento é proveitoso ouvir, em virtude do seu conteúdo sempre válido e atual. Dele sentem, não poucos de entre vós, uma necessidade que é urgente e que certamente não se pode menosprezar.

Assim, Nós não vamos, agora, ajuntar nada às numerosas e interessantíssimas relações e comunicações que foram aqui expostas pela vossa consumada e exuberante cultura. Só esperamos que estes estudos, numerosos e excelentes, venham a ser reunidos numa publicação condigna, e também a Nós sejam de algum modo acessíveis, pelo menos nas horae subsicivae do Nosso premente ministério. E, louvamos e encorajamos o interesse que dedicais a S. Tomás: consideramos esse interesse importante para o vosso trabalho intelectual e de grande utilidade para as vossas pessoas, candidatas, mais do que tantas outras, à conquista daquela suma Sabedoria que coincide com a verdadeira Vida.

Na escola da S. Totnás

Contudo, não desejamos perder a oportuna ocasião que Nos é oferecida, para recordar aos vossos discípulos e até mesmo a vós, qualificados obreiros do pensamento, quanto pode ser útil frequentar ainda hoje a escola de S. Tomás (como, aliás, pelo mérito comum, também a de outros exímios Escolásticos), para aprender, antes de qualquer outra ciência, a arte de bem pensar. De momento, limitamo-Nos a insistir na questão de método, de pedagogia intelectual. Travailler à bien penser como nos aconselha Pascal [ Pensées, 347]. Quer dizer: é necessário estar muito atento à lógica. E, lógica, entendemo-la em sentido amplo e verdadeiro, como uso rigoroso e honesto da inteligência na busca da verdade das coisas e da vida. Por que motivo fazemos esta recomendação? Porque tememos que as faculdades cognoscitivas da nova geração sejam facilmente atraídas e tentadas a sentirem-se satisfeitas pela facilidade e pela afluência dos conhecimentos sensíveis e fenomênico-científicos, isto é, exteriores ao espírito humano, e se desviem do esforço sistemático e absorvente de procurar as razões superiores tanto do saber como do ser. Tememos uma carência da filosofia autêntica, capaz de sustentar hoje o pensamento humano, quer no esforço científico coerente e progressivo, quer especialmente na formação da inteligência para chegar à verdade como tal, e, por consegujnte, capaz de dotar o espírito humano da ampljdão e da profundeza de vistas, a que de fato ele está destinado, mas sempre sujeito ao perigo de não atingir aqueles conhecimentos supremos, embora fundamentais e elementares, susceptíveis de o ajudar a realizar o seu verdadeiro destino e a penetrar no conhe- cimento, indispensável apesar de inicial, do mundo divino; ao passo que Nós estamos certo de que um exercício correto, honesto e rigoroso do pensamento filosófico predispõe o espírito para acolher igualmente aquela mensagem sobrenatural de luz divina, que se chama fé. É o Senhor quem o diz: qui facit veritatem venit ad lucem [Jo, 3, 31].

Mestre de filosofia e de teologia

A escola de S. Tomás pode servir-nos de propedêutica, elementar mas providencial, daquele alpinismo intelectual, tanto filosófico como teológico, que exige, sim, o respeito pelas leis do pensamento, quer na análise quer na síntese, e na investigação indutiva, do mesmo modo que na conclusão dedutiva; respeito indispensável para se poder conquistar o vértice da verdade, e para poupar à inteligência a vã experiência de construções ilusórias e muitas vezes frágeis. E ainda para um outro fim, sempre no campo didático, mas bastante importante na economia do pensamento: o de habituar o discípulo (e, perante o saber, todos somos discípulos) a raciocinar em virtude dos princípios subjetivos da verdade e dos princípios objetivos da realidade, e não segundo fórmulas que a cultura de moda, favorecida muitas vezes por tantos fatores esteriores e ocasionais, impõe à mentalidade passjva de um determinado ambiente ou de um dado momento histórico. Parece estranho, mas é assim: o Mestre S. Tomás, longe de privar o discípulo da sua capacidade pessoal e original de conhecimento e de investigação, desperta, mesmo, aquele appetitus ueritatis que assegura ao pensamento uma fecundidade sempre nova, e ao estudioso a sua autêntica personalidade.
Muitas outras coisas haveria ainda a dizer, a este propósito. Bastam, porém, estas simples observações para assegurar a todos vós, cultores dos estudos tomistas, a Nossa estima; e para encorajar o vosso trabalho grandioso e multiforme: ele virá incrementar o pensamento, especialmente o pensamento filosófico, e oferecerá alimento são e indispensável também ao pensamento religioso, à fé, que não se opõe à razão, mas dela precisa, pois é verdade o que S. Tomás afirma: Credere, est cum assensu cogitare [Sum. Th., II-IIae, q.2, art.1].
A todos vós concedemos a Nossa Benção.

 

 

 

 

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