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A LIÇÃO DO DOUTOR ANGÉLICO: CONFIANÇA NA VERDADE DO PENSAMENTO RELIGIOSO CATÓLICO.

embrião humano na fase de blastocisto Paulo VI [1963-1978]

Discurso em Fossanova

Na tarde de sábado, 14 de Setembro, o Santo Padre Paulo VI deslocou-se à Abadia de Fossanova, e dali a Aquino e a Roccasecca, lugares que conservam com afectuosa devoção a mem6ria do grande Doutor da Igreja, S. T omás, de cuja morte decorria o sétimo centenário. O Santo Padre viajou de helic6ptero, e as impressões que sentiu descreveu-as no dia seguinte aos fiéis reunidos em Castel Gandolfo, antes da reza do Angelus. Em Fossanova morreu S. Tomás de Aquino, o qual, convidado pelo Papa Greg6rio X, partira de Nápoles, e ia tomar parte no Concílio de Lião, na França. Paulo VI foi o quarto Papa a visitar a Abadia de Fossanova. Antes dele, estiveram lá Inocêncio III, Bento XV e Pio VI. Eis o discurso que Paulo VI, pronunciou, na ocasião da Sua visita:

Viemos a Fossanova para venerar S. Tomás de Aquino no lugar onde ele morreu a 7 de Março de 1274, há setecentos anos, quando tinha aproximadamente a idade de cinqüenta anos. Era Nossa intenção fazer esta visita quase despercebidamente, a título de devoção particular; mas as circunstâncias prevaleceram sobre essa Nossa intenção, e, dada a presença de tão numerosas personalidades eclesiásticas, religiosas e civis, e de tanto povo, a Nossa homenagem humilde e pessoal torna-se pública e transforma-se numa cerimônia comemorativa. Melhor assim: pela honra coletiva e significativa que é prestada à memória do Santo, bem digna de lembrança e de veneração comum; pela ocasião que se Nos oferece de vos encontrar a todos e de vos saudar na qualidade digníssima de fiéis crentes e cultores da estima que é devida a tão grande Santo, bem como na qualidade específica daquilo que vós sois e representais neste momento e neste lugar; e pelo dever que sentimos de vos dirigir uma palavra muito simples e sem a menor pretensão de se elevar ao tema superlativo que a menção do grande Doutor exigiria de Nós e para vós. Uma palavra devida mais ao carácter litúrgico desta cerimônia do que ao da comemoração do Santo que Nos propomos honrar e invocar. Diremos, pois, somente qual é a razão - uma das razões! - que parece brotar da evocação da memória de S. Tomás, e que explica esta Nossa piedosa excursão estiva e festiva.
Essa razão identificá-la-emos logo, se todos perguntarmos a nós mesmos: porque é que estamos aqui? Dado o carácter que este encontro assumiu, não é, certamente, par a um gesto de religiosa veneração, como se, à aparição do Santo no écran da nossa consciência, nos curvássemos emocionados e felizes, perante a sua grande e hierática figura. Essa figura, que se torna viva pela comunhão dos Santos, sempre reevocada por um rito religioso como este, provoca em nós uma pergunta audaciosa: que lição nos pode dar o mestre Tomás? A nós, num momento breve e intenso como o presente, a nós, situados a sete séculos de distância da tua escola; a nós, galvanizados pela cultura moderna; a nós, orgulhosos do nosso saber científico; a nós, distraídos pela «fascinação da frivolidade», a fascinatio nugacitatis de que nos fala o livro da Sabedoria [4, 12] e cujo vertiginoso encanto experimentamos hoje com o predomínio do conhecimento sensível sobre o conhecimento intelectual e espiritual; a nós, submetidos à anestesia do laicismo anti-religioso; a nós, Tu, S. Tomás, que ainda te mostras grande, como filósofo e como teólogo, pensamento ávido de segurança, de clareza, profundidade, de realidade; a nós, mesmo só com uma palavra, que é que podes dizer-nos?
Agora, S. Tomás não responde com palavras, se bem que aos nossos ouvidos muitas poderiam chegar, vindas das suas obras; mas responde com o reflexo da sua figura e do seu ensino, de que Nos parece ouvir uma lição exortadora: a da confiança na verdade do pensamento religioso católico, tal como ele o defendeu, o expôs e o mostrou à capacidade cognoscitiva da inteligência humana. Bastem alguns aspectos da sua obra monumental para fortalecer em nós esta confiança, que desejaríamos permanecesse como uma recordação vital da comemoração centenária do Santo Doutor. Confiança, porque a sua obra se afirma na história do pensamento, quer filosófico, quer teológico, como uma síntese daquilo que outros Mestres eminentes, antes dele, estudaram e deixaram em herança à cultura universal: ele assimilou o tesouro do saber mais significativo do seu tempo (que foi um tempo incomparável, pela vastidão e pela profundidade do estudo especulativo); qualificou-o com o mais rigoroso intelectualismo (o aristotélico), que, sem deixar de reconhecer outras formas supremas de conhecimento, como a neoplatônica agostiniana, parece colocá-lo em sintonia com a nossa rigorosa mentalidade científica moderna; submeteu-o sem preconceitos à discussão dialéctica de uma honesta e premente racionalidade; e assim o abriu a toda a possível aquisição progressiva, eventualmente requerida pela descoberta de uma verdade ulterior.
Devemos ainda confiança aS. Tomás, porque ele nos ajuda a resolver o conflito tão conclamado e radicado no nosso tempo, entre as duas formas de conhecimento de que dispõe a inteligência do homem crente, a fé e a ciência, partindo da Palavra de Deus revelada e apoiada em razoáveis motivos de credibilidade, e levando depois a inteligência humana, a ciência, a estudá-la com princípios e métodos próprios, de modo que a teologia que daí resulta, possa, sem presunção e sem superstição, elevar-se a um verdadeiro e maravilhoso nível de scientia Dei.
Confiança, enfim, pelo providencial resultado que para o homem, ou melhor, para a vida do homem deriva da complementariedade recíproca da fé e da ciência. A fé procura na ciência, isto é, no conhecimento humano natural, não a certeza, que é dom de graça, mas a sua confirmação, o seu desenvolvimento, a sua defesa, o seu gozo: fides quaerens intellectum; e a inteligência quaerens fidem recebe, em troca, o benefício de um guia terminal sem par, garantido como está pela fé da Verdade divina que o sustenta, que ilumina todo o conhecimento humano, preservando-o da inutilidade do próprio esforço, da incurabilidade da dúvida e do desesperado ceticismo final do nihil scire, bem como do insensato orgulho de um despotismo científico, hoje mais provável do que nunca, que pode converter em ofensa e em morte para o homem pensante as conquistas do seu próprio pensamento.
Confiança! S. Tomás pode ser para nós um dos mais autorizados e convenientes testemunhos da providencial existência daquele Magistério que foi confiado por Cristo à Sua Igreja, o qual não obstrui os caminhos do saber, mas os abre, os retifica e os defende; nem sequestra só para os iniciados nas canseiras, nas ascensões e nas acrobacias do pensamento a luz da Verdade vivificante, mas a oferece, com humilde e sublime catequese, a todos aqueles que na mesma Igreja se reconhecem discípulos, e reserva a revelação dos mistérios mais altos e salutares da fé aos pequenos, aos simples, aos pobres, ao Povo ignaro das especulações difíceis, mas dócil e disponível para o inefável diálogo da Palavra de Deus.
Invoquemos, pois, S. Tomás, o qual, convidando-nos hoje para a sua escola, nos leva ao colóquio, no Espírito Santo, com Cristo Mestre.

 

 

 

 

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