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A LIÇÃO DO DOUTOR ANGÉLICO: CONFIANÇA NA VERDADE DO PENSAMENTO RELIGIOSO CATÓLICO.
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Discurso em Fossanova
Na tarde de sábado, 14 de Setembro, o Santo Padre Paulo VI deslocou-se à Abadia de Fossanova, e dali a Aquino e a Roccasecca, lugares que conservam com afectuosa devoção a mem6ria do grande Doutor da Igreja, S. T omás, de cuja morte decorria o sétimo centenário. O Santo Padre viajou de helic6ptero, e as impressões que sentiu descreveu-as no dia seguinte aos fiéis reunidos em Castel Gandolfo, antes da reza do Angelus. Em Fossanova morreu S. Tomás de Aquino, o qual, convidado pelo Papa Greg6rio X, partira de Nápoles, e ia tomar parte no Concílio de Lião, na França. Paulo VI foi o quarto Papa a visitar a Abadia de Fossanova. Antes dele, estiveram lá Inocêncio III, Bento XV e Pio VI. Eis o discurso que Paulo VI, pronunciou, na ocasião da Sua visita:
Viemos
a Fossanova para venerar S. Tomás de Aquino no lugar onde ele morreu
a 7 de Março de 1274, há setecentos anos, quando tinha aproximadamente
a idade de cinqüenta anos. Era Nossa intenção fazer esta
visita quase despercebidamente, a título de devoção
particular; mas as circunstâncias prevaleceram sobre essa Nossa intenção,
e, dada a presença de tão numerosas personalidades eclesiásticas,
religiosas e civis, e de tanto povo, a Nossa homenagem humilde e pessoal
torna-se pública e transforma-se numa cerimônia comemorativa.
Melhor assim: pela honra coletiva e significativa que é prestada
à memória do Santo, bem digna de lembrança e de veneração
comum; pela ocasião que se Nos oferece de vos encontrar a todos e
de vos saudar na qualidade digníssima de fiéis crentes e cultores
da estima que é devida a tão grande Santo, bem como na qualidade
específica daquilo que vós sois e representais neste momento
e neste lugar; e pelo dever que sentimos de vos dirigir uma palavra muito
simples e sem a menor pretensão de se elevar ao tema superlativo
que a menção do grande Doutor exigiria de Nós e para
vós. Uma palavra devida mais ao carácter litúrgico
desta cerimônia do que ao da comemoração do Santo que
Nos propomos honrar e invocar. Diremos, pois, somente qual é a razão
- uma das razões! - que parece brotar da evocação da
memória de S. Tomás, e que explica esta Nossa piedosa excursão
estiva e festiva.
Essa razão identificá-la-emos logo, se todos perguntarmos
a nós mesmos: porque é que estamos aqui? Dado o carácter
que este encontro assumiu, não é, certamente, par a um gesto
de religiosa veneração, como se, à aparição
do Santo no écran da nossa consciência, nos curvássemos
emocionados e felizes, perante a sua grande e hierática figura. Essa
figura, que se torna viva pela comunhão dos Santos, sempre reevocada
por um rito religioso como este, provoca em nós uma pergunta audaciosa:
que lição nos pode dar o mestre Tomás? A nós,
num momento breve e intenso como o presente, a nós, situados a sete
séculos de distância da tua escola; a nós, galvanizados
pela cultura moderna; a nós, orgulhosos do nosso saber científico;
a nós, distraídos pela «fascinação da
frivolidade», a fascinatio nugacitatis de que nos fala o
livro da Sabedoria [4, 12] e cujo vertiginoso encanto experimentamos hoje
com o predomínio do conhecimento sensível sobre o conhecimento
intelectual e espiritual; a nós, submetidos à anestesia do
laicismo anti-religioso; a nós, Tu, S. Tomás, que ainda te
mostras grande, como filósofo e como teólogo, pensamento ávido
de segurança, de clareza, profundidade, de realidade; a nós,
mesmo só com uma palavra, que é que podes dizer-nos?
Agora, S. Tomás não responde com palavras, se bem que aos
nossos ouvidos muitas poderiam chegar, vindas das suas obras; mas responde
com o reflexo da sua figura e do seu ensino, de que Nos parece ouvir uma
lição exortadora: a da confiança na verdade do pensamento
religioso católico, tal como ele o defendeu, o expôs e o mostrou
à capacidade cognoscitiva da inteligência humana. Bastem alguns
aspectos da sua obra monumental para fortalecer em nós esta confiança,
que desejaríamos permanecesse como uma recordação vital
da comemoração centenária do Santo Doutor. Confiança,
porque a sua obra se afirma na história do pensamento, quer filosófico,
quer teológico, como uma síntese daquilo que outros Mestres
eminentes, antes dele, estudaram e deixaram em herança à cultura
universal: ele assimilou o tesouro do saber mais significativo do seu tempo
(que foi um tempo incomparável, pela vastidão e pela profundidade
do estudo especulativo); qualificou-o com o mais rigoroso intelectualismo
(o aristotélico), que, sem deixar de reconhecer outras formas supremas
de conhecimento, como a neoplatônica agostiniana, parece colocá-lo
em sintonia com a nossa rigorosa mentalidade científica moderna;
submeteu-o sem preconceitos à discussão dialéctica
de uma honesta e premente racionalidade; e assim o abriu a toda a possível
aquisição progressiva, eventualmente requerida pela descoberta
de uma verdade ulterior.
Devemos ainda confiança aS. Tomás, porque ele nos ajuda a
resolver o conflito tão conclamado e radicado no nosso tempo, entre
as duas formas de conhecimento de que dispõe a inteligência
do homem crente, a fé e a ciência, partindo da Palavra de Deus
revelada e apoiada em razoáveis motivos de credibilidade, e levando
depois a inteligência humana, a ciência, a estudá-la
com princípios e métodos próprios, de modo que a teologia
que daí resulta, possa, sem presunção e sem superstição,
elevar-se a um verdadeiro e maravilhoso nível de scientia Dei.
Confiança, enfim, pelo providencial resultado que para o homem, ou
melhor, para a vida do homem deriva da complementariedade recíproca
da fé e da ciência. A fé procura na ciência, isto
é, no conhecimento humano natural, não a certeza, que é
dom de graça, mas a sua confirmação, o seu desenvolvimento,
a sua defesa, o seu gozo: fides quaerens intellectum; e a inteligência
quaerens fidem recebe, em troca, o
benefício de um guia terminal sem par, garantido como está
pela fé da Verdade divina que o sustenta, que ilumina todo o conhecimento
humano, preservando-o da inutilidade do próprio esforço, da
incurabilidade da dúvida e do desesperado ceticismo final do nihil
scire, bem como do insensato orgulho de um despotismo científico,
hoje mais provável do que nunca, que pode converter em ofensa e em
morte para o homem pensante as conquistas do seu próprio pensamento.
Confiança! S. Tomás pode ser para nós um dos mais autorizados
e convenientes testemunhos da providencial existência daquele Magistério
que foi confiado por Cristo à Sua Igreja, o qual não obstrui
os caminhos do saber, mas os abre, os retifica e os defende; nem sequestra
só para os iniciados nas canseiras, nas ascensões e nas acrobacias
do pensamento a luz da Verdade vivificante, mas a oferece, com humilde e
sublime catequese, a todos aqueles que na mesma Igreja se reconhecem discípulos,
e reserva a revelação dos mistérios mais altos e salutares
da fé aos pequenos, aos simples, aos pobres, ao Povo ignaro das especulações
difíceis, mas dócil e disponível para o inefável
diálogo da Palavra de Deus.
Invoquemos, pois, S. Tomás, o qual, convidando-nos hoje para a sua
escola, nos leva ao colóquio, no Espírito Santo, com Cristo
Mestre.
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